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AudioBook: A Chave do Enigma by Antonio Feliciano de Castilho
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A CHAVE DO ENIGMA
Dezembro de 1861
Digam embora que me biographei; vou escrever uma página da minha vida.
Se mais ninguém a ler, lê-la-ão os meus amigos. Ela também, irmã de interesses grandes, desenfeitada de estilo, e só atendível, se o for, por verdade e afecto, aspira unicamente a cativar a atenção dos poucos para quem um murmúrio de folhas num retiro de estio, e de vez em quando uns gorgeios ou pios de duas aves que se entre reclamam emboscadas, suprimem conversações, leituras, e até pensar.
Enfim, se nem para os meus íntimos valer o que eu tenho de bosquejar, muito saudoso de tempos que lá vão, ficará sendo só para mim, e para quem m'o inspirou; ah! quem m'o inspirou já m'o não pode ler, mas por ventura o ouve. Será um devaneio, e um solilóquio; será uma folha solta de uma deliciosa árvore longínqua, hospedeira minha há muitos dias; folha que uma viração despegou, volveu nos ares, me atirou à fronte, e me lançou aos pés, para aí fenecer esquecida.
Não vale a pena de mais prólogo. Nem tanto me está parecendo agora que fosse necessário.
I
Antes de tudo, releva conhecer o indivíduo. Não é empenho muito fácil; mas tentemos.
Levanta-se logo a primeira dificuldade d'este capítulo na averiguação da identidade:
Reflicta cada um consigo mesmo n'este grave ponto: a repetição de nome, a semelhança das feições, a conservação, com mais ou menos mudanças, da índole primitiva, dos gostos, e das relações activas e passivas com as pessoas e coisas do mundo externo, bastarão para que, em boa filosofia, um homem qualquer se repute unidade consoante, e único indestrutível no meio da metamorfose universal? Embaraçoso problema!
O espírito imaterial e imorredoiro quer, por instinto, por egoísmo, por fé, acreditá-lo; mas o estudo da Natureza, e a própria experiência quotidiana, desmentem em boa parte essa presunção.
O indivíduo não é só a alma; o corpo que a reveste, a serve, e tantas vezes a domina, é mais que sujeito a contínuas e espantosas variações; renova-se incessantemente, perecendo e renascendo a cada instante; a sua carne de hoje era ainda ontem vegetais, ruminantes, aves, peixes, água nas fontes, gazes na atmosfera, calórico no sol, terra debaixo dos pés, e electricidade sabe Deus por onde; congregaram-se essas miríades de partículas... existiu; amanhã partirão, todas elas destacadas para novas combinações e destinos, sem que o espírito lhes haja sentido a fuga, porque outras partículas, acorridas do universo, terão vindo rendê-las sem estrondo nem abalo.
N'este sentido cada indivíduo é simultaneamente filho, irmão, e pai, influenciador e influído, conservador, destruidor, modificador, herdeiro, usufructuário, e testador, de quantos entes sensitivos, vegetativos, inorgânicos, imperceptíveis, imponderáveis, são, como ele, parcelas componentes do planeta em que ele se proclama senhor e potentado.
Mas se esta desidentificação incessante do corpo escapa às nossas percepções, por não apresentar de hora para hora mudanças apreciáveis no ser, no sentir, e no pensar, já assim não é quando nos outros, e em nós mesmos, confrontamos a infância com a puerícia, a puerícia com a adolescência, a adolescência com a virilidade, a virilidade com a velhice, a velhice com a decrepidez; ou, suprimindo os graus intermédios para maior evidência, a caducidade com a madureza, a madureza com o desabrochar no berço.
Que há aí de comum?!
Unicamente o nome, acidente impessoal, insignificativo, nulo.
O corpo é manifestamente diversíssimo, e em tudo outro; e com o corpo outro e tão diverso, outras e diversas igualmente são as faculdades íntimas, outro e diverso o sentir, o querer, o recordar, o ambicionar.
Não são
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