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Audiolivro de Voz de IA: Sinapismos de Francisco Pires Zinão

Audiolivro: Sinapismos de Francisco Pires Zinão

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Sinapismos

Duas Palavras

Essas páginas são para rir.

Originou-as a curiosidade que despertaram alguns artigos humorísticos, publicados sob o título de Ridendo.

Há nelas referências pessoais, como não pode deixar de ser, para que os períodos não tenham a aridez dos discursos do sr. conselheiro Adriano Machado; mas são referências à vida social e à parte que nela tomam as individualidades, que chamo ao tablado da ironia.

Respeito sempre a vida particular e isso que há de mais nobre e sagrado na sociedade—a família.

O leitor verificará que, na composição dos artigos, segui um processo de crítica diferente do usado, até hoje, nas polêmicas literárias e políticas da nossa terra.

Suscita-se uma questão, esgotam os adversários os argumentos mais ou menos concludentes, que as suas inteligências lhes fornecem; depois, invariavelmente, vem a crítica estulta e pueril da redação dos períodos, sua composição gramatical, ortografia, etc., e conclui-se com as alusões à vida particular, em termos de collareja e argumentação de viela. Temos visto muito disso por cá...

Nessas páginas há artigos inofensivos e há períodos, em que a ironia é violenta—desde já o declaro—porque foram inspirados no afeto, que a esta terra consagro e no veemente desejo que nutro, de que ela se liberte da ignóbil inércia, que a domina e de influências ridículas, que a amesquinham.

Descarna-se neles, com o escalpelo do sarcasmo, a parte deste organismo que a podridão ataca, aplicando-se, como cautério, o ridículo e a gargalhada, como desinfetante; mas não influi nela essa operação a sensualidade brutal do estripador londrino, ou a ferocidade selvagem da sangrenta tragédia de Pantin. Há a insensibilidade e a firmeza de pulso, que a Ciência recomenda ao operador quando, para salvar órgãos essenciais à vida, lhe impõe a imediata extirpação e cautério violento de outros, que o mal apodrece.

Essas linhas foram, pois, pautadas pela dignidade e nunca nelas predominou a influência de ressentimentos mesquinhos, ou a intenção de referências ofensivas, que seriam torpes, como anônimas.

Eis o meu programa e se alguma vez se desfivelar a máscara do Zinão, oxalá que uma errônea interpretação do que se vai ler, não faça afrouxar a ação nervosa, que hoje me estende a mão de muitos amigos, que figuram nessas páginas.


Passo a afinar a rabeca.

Valença—Novembro, 1889.

Zinão.

Aos pobres de Valença

Entrevados, paralíticos, cegos, escrofulosos, tísicos, hidrópicos,

—Velhos, mulheres e crianças,

que sois o produto dos resíduos—caput mortuum—da Humanidade e por aí vos arrastais, penosamente, aos sábados, disputando, à dentada, o magro chabo que às descarnadas mãos, em público e notório arroto de rothschildica generosidade, vos arremessam os poderosos Cresus da nossa terra;

—misérios, que tivestes a desventura de ver a luz do dia coada pelas frestas da mansarda, quando esses mesmos átomos e moléculas a que deveis a vida, atrazando-se, ou adiantando-se no seu labutar constante, podiam gerar-vos entre arminhos e flores, entre aromas e carícias;

—precipitados, que dormitais, tiritando e gemendo com fome, enroscados, como cães, na ampla escadaria da Assembleia, em noites de baile e de festa e vos vedes apartados, como reprobos, isolados como hidrófobos, do ruidoso e alegre tumultuar da vida, em que há risos, mulheres formosas, afetos e diamantes;

—párias, que a doença algemou ao catre da dor, e a quem a luz formosíssima da alvorada vai encontrar no estertor da agonia, nas convulsões do sofrimento, nas infernais torturas da miséria—essa mesma luz que desperta e ilumina a caravana alegre, quando, exuberante de vida, de mocidade e de prazer segue, ruidosa, ao Faro, para respirar o oxigênio das montanhas e admirar as sorridentes paisagens da Natureza, d’essa desalmada Mãe, que para vós só teve quadros sombrios, horrores, vendavais de infortúnio, abismos de sofrimento;

—famintos, que espreitais com olhos sofredores os dourados salões de Pantagruel e de Gargântua, e vos sentis deslumbrados com o faiscar dos cristais, alcoolizados com os aromas das iguarias, estonteados com o espumar do Champagne, até que o lacaio vos atire o osso que o mastim disputa, ou vos expulse a chicote, para que a miséria dos farrapos nojentos, o fétido dos membros descarnados, a palidez cadavérica da face, não vão perturbar a alegria dos convivas, lembrando-lhes que há por este mundo gente que nasce, vive e morre, sem conhecer o que é Champagne frappé, Punch à la romaine, ou Riz de veau à la Tartare;

—imprudentes, que vos atreveis a bater à porta do Hospital depois das oito da noite, como se a Caridade não tivesse mais que fazer, do que estar à vossa espera, e por aí aparecereis, depois, mortos nas muralhas, com o ventre para o ar, olhos esbugalhados, membros hirtos, esverdeados, cheirando mal;

—reprobos, que nem entrada tendes nos templos, onde imaginais que, por lá estar Cristo, se igualam as condições, ignorando que o Cristo da missa do meio-dia não é vosso, mas o dos argentários que, para iludirem a consciência e satisfazerem as exigências da vaidade e as aparências da hipocrisia, lhe dão capas de veludo e coroas de ouro; lhe fazem companhia nas longas noites do inverno, distraindo-o com essas imorais bambochatas das Novenas e da Semana Santa, com a sonolenta melopeia da padreçada, com as intrigas e confidências amorosas, com o cochichar mordaz do beaterio, que entre Torres eburnea e Mater castissima, discute a confecção de um vestido da Torrona, ou do Blanco—e lhe fazem venias, e batem no peito, e andam por aí, de porta em porta, ostentando cinicamente crenças, que não possuem, crenças, que não compreendem, a pedir em nome de Cristo, que é o símbolo do amor e da humildade, os cinco tostões da subscrição, quando à mesma hora, infelizes, olhais, soluçando, para a escudella vazia e as crianças vos mordem os peitos, porque já não tendes leite, nem o calor da vida...

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