eBook Grátis, Voz IA, Audiolivro: Noites de insomnia, offerecidas a quem não póde dormir. Nº 12 (de 12) por Camilo Castelo Branco

Audiolivro: Noites de insomnia, offerecidas a quem não póde dormir. Nº 12 (de 12) por Camilo Castelo Branco
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Noites de Insomnia
O Que Eram Frades
Houve-os de santa vida, que pregaram o evangelho dos bons exemplos, e deixaram na terra vestígios do martírio – o grande martírio do coração abafado e morto na estamenha do hábito; e d’esses alguns deixaram livros divinos, desde o pensamento até à linguagem. Ganharam assim duas eternidades luzentíssimas: a do seio de Deus, e a bênção dos que, neste mundo tão outro e tão estrondeado do caboucar do progresso, alta noite, os estudam à lâmpada solitária do seu ermosinho, onde sorri a paz, porque a inveja lá não entra.
Houve-os, também, frades funestos que escavaram com pulso sacrílego a sepultura dos bons no atascadeiro da política; e a política, na hora em que pode arpoá-los, na torrente dos seus enxurros, atirou-os, bons e maus, ao monturo das instituições podres e pestilenciosas.
O descrédito das ordens monásticas é quasi coevo da sua instituição. Os santos padres, os concílios, as comunas, os poderes civis lavraram desde os primeiros séculos protestos formidáveis contra as religiões alheias do primitivo espírito do seu instituto. A volta do século XVII, os mosteiros em Portugal, desatados do vínculo da humildade, e cegos da sua opulência e autoridade no ânimo dos príncipes, haviam tocado o cairel da voragem. E logo que, depois da perda de D. Sebastião, a guerra civil fermentou nos bandos faccionários dos pretendentes ao trono, e a coroa resvalou da fronte do cardeal-rei, a fradaria saiu dos seus cenóbios, e saltou para as praças e arraiais arrancando a espada do talabarte que cingia o hábito.
Reportando-se aos indisciplinados frades d’esse tempo, referem as histórias que, no ano 1580, se passou um escandaloso motim no mosteiro dos Jerónimos de Belém. Rebello da Silva repete assim o caso com as particularidades noticiadas por Conestagio:
«Os monges do mosteiro de Belém, da ordem de S. Jerónimo, vendo o reino sem monarca, as justiças sem respeito, e os abusos sem castigo, intentaram também prevalecer-se da desgraça do tempo para vingarem antigas queixas.
«Usando dos poderes de príncipe e da autoridade eclesiástica de legado pontifício, e violando a regra e observância monástica, o cardeal D. Henrique tinha arrogado a si a nomeação dos prelados da casa. Pareceu apropriada aos padres a conjuntura para sacudirem o jugo; e juntos em comunidade foram bater à porta da cela de fr. Manoel de Évora, que exercia as funções de provincial. Abriu-lhes, sobresaltou-se, e acabou de cair das nuvens, quando lhe disseram que se demittisse logo, porque não tendo sido eleito em capítulo, era nula a sua jurisdição, competindo-lhes a eles prover, e designarem por sufrágio quem os havia de governar.
«Resistiu; altercaram; lançou-lhes em rosto a demasia e a desobediência, clamaram; negou-se positivamente a consentir, e viu-se de repente maltratado das mãos dos súbditos, preso e encarcerado em um celleiro.
«Achou modo de avisar os parentes, uniram-se e suplicaram ao núncio, Alexandre Frumento, que se interposesse, obrigando os frades a soltarem e reconhecerem o seu prelado.
«Responderam com soberba, que o núncio não era seu juiz. Foi necessário recorrer ao braço secular. Informados de motim tão escandaloso e ofensivo da humildade religiosa às abas da capital, os governadores do reino mandaram aos ministros da cidade, que fossem executar a sentença apostólica acompanhados de três bandeiras de soldados.
«A resistência dos padres não diminuiu. Cerraram as portas do mosteiro, deixaram as da igreja abertas, e de dentro das grades do coro na capela-mor respondiam, cantando os ofícios divinos, às advertências e admoestações dos magistrados.
«Por fim a paciência exauriu-se; a tropa entrou no templo, e arrombou a grade do coro, que era de pau. Seguiu-se um verdadeiro alvoroço; os guardas forcejando por prender os monges; estes esquivando-se em tropel, ou a um e um, e opondo as armas espirituais às temporais, bulas, crucifixos, ceriais, tocheiros, monitorias e excomunhões ao pulso vigoroso dos perseguidores.
«A final, cercados e rendidos, foram quasi arrastados em triunfo pelos vencedores ao celleiro aonde jazia o provincial cativo, e para maior desgosto tiveram de lhe beijar a mão em público e de ajoelhar aos seus pés como súbditos arrependidos. Entretanto não se submeteram sem o protesto de que cediam constrangidos pela força, e de que apelariam do núncio de Roma.»
Até aqui o distincto historiador.
Porém, outras causas que vou contar motivaram a insurreição dos monges contra o seu prelado.
Eu não me assombro se o leitor me atalhar o entusiasmo, com que pretendo illustrá-lo, dizendo-me no arrugar da sobrancelha que se dispensa de saber profundamente as causas que amotinaram uns frades há duzentos e noventa e quatro anos. Todavia, em menoscabo dos meus créditos de escritor fútil, insisto no esclarecimento d’este episódio de abastardamento do heroico Portugal, que Luiz de Camões cantara.
O documento, que vou publicar e nos alumia o escuro caso, nunca esteve em mão dos que escreveram a história.
D. Christóvão de Moura não perdia lanço de remover estorvos à usurpação de Philippe II. Acudia prompto com a corrupção onde quer que palpitasse coração português. Se a peçonha do ouro não vingava ulcerar as consciências, empregava a persuasão dos direitos de Philippe, mediante a eloquência de jurisconsultos castelhanos e nacionais.
Sabia o confidente do rei de Hespanha que a maioria dos mosteiros pendia ao duque de Bragança, ou ao prior do Crato; e, entre os mosteiros mais temíveis na propaganda a favor de monarca português, estremava-se, quando o cardeal-rei faleceu, o convento do Belém.
Urgia-lhe, pois, influir no espírito d’aqueles monges com a eloque
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