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eBook Gratuito, Voz IA, AudioLivro: Era uma vez... por Júlia Lopes de Almeida

AudioLivro com Voz IA: Era uma vez... por Júlia Lopes de Almeida

AudioLivro: Era uma vez... por Júlia Lopes de Almeida

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ERA UMA VEZ...

Quando a Princesa Edeltrudes nasceu, era tão pequenina, tão pequenina, que poderia dormir à vontade dentro de um dos sapatinhos da Rainha, sua mãe. Mas o berço em que a meteram era muito lindo, todo de fios de ouro entrelaçados e grinaldinhas de folhagens e de rosas, simuladas por esmeraldas e rubis.

Com medo de que a sua fragilidade a matasse, bafejaram-na, amimaram-na, rodearam-na dos mais extremados carinhos...

E a Princesinha resistiu, e foi crescendo cheia de vontades imperiosas.

Era ainda muito tenrinha quando um dia a mãe, ao embalá-la com as suas próprias mãos cor de cera, deixou cair a cabeça sobre o peito e adormeceu... E assim como o berço deixou de oscilar, parou no peito da Rainha o coração.

Houve gritos, lamentos, correrias, mas a criança no meio das suas rendas não percebeu coisa alguma e nem um estremecimento sacudiu a carnação rosada do seu corpinho rechonchudo.

E desde então o Rei viveu com medo de que à filha acontecesse o mesmo que acontecera à esposa, e jurou por isso não lhe dizer já mais na vida um "não".


Quando Edeltrudes começou a falar e a distinguir o que a rodeava, todos que via eram seus servos. O próprio pai fazia-se seu escravo. "Que a tua vontade seja feita" era o que respondiam a todos os seus caprichos. E ela cada vez os tinha de mais difícil realização!

As damas da corte e as aias viviam num suplício, e o povo cá fora afirmava que a Princesinha tinha nascido sem coração.

Por isso a mãe lhe quisera dar o seu, sem o ter conseguido.

Poderia haver nada mais triste do que uma menina sem coração?

Todos os dias, mal abria os olhos, punha-se ela no seu leito a imaginar que tortura haveria de aplicar à primeira pessoa que lhe aparecesse; e a sua imaginação, exercitada nessa terrível espécie de jogo, encontrava sempre um meio original de exercer a maldade. Toda gente no palácio tinha alcunhas, até aos próprios velhinhos ela tratava por tu e ordenava cousas difíceis e dolorosas.

E o Rei?

O Rei continuava a deixar que ela fizesse o que entendesse, todo embebido no seu amor paterno e na saudade da Rainha de mãos cor de cera e olhos cor de turqueza fluida...

E no entanto ele era um homem forte, autoritário, que fazia tremer o assoalho da casa ao peso dos seus passos, e ajoelhar os súditos ao som da sua voz, grossa como um trovão.


À proporção que se fazia mulher ia a Princesa compreendendo que a atmosfera que a envolvia era feita de indiferença e desamor. Só no pai encontrava sinceridade. Os outros não lhe queriam bem; porque ninguém pode ter afeição a quem seja, como era a Princesa, tão egoísta e tão má. Quem espalha maldições não pode colher simpatias, quem só produz o mal de quem poderá esperar o bem?

Bem compreendia a Princesa que a vida não era igual para todos, pois via às vezes dos altos torreões do seu Castelo certas mulheres do povo beijarem na rua as crianças, enternecidamente. O beijo seria criado só para o uso da ralé?...

O próprio pai quando a abraçava apenas lhe roçava os lábios pela testa, receando talvez sufocá-la nas ondas argênteas das suas grandes barbas.

E a Princesa navegava assim na vida, como fora da vida...


Era já mulher feita e linda, quando uma tarde mandou selar o seu melhor cavalo e saiu a galopar pelas alamedas do parque.

A ninguém era permitido acompanhá-la nos seus giros de loucura, como ela mesma costumava dizer ao pai. Havia na solidão alguma cousa que a atraía; buscava inconscientemente a verdade que os cortesãos não lhe sabiam dizer...


Nessa linda tarde cor de violeta, tão distraída estava a Princesa que depois de ter saltado valados, pulado cercas, embarafustado por campos lavrados, meteu-se, já cansada, por uma longa estrada margeada de um lado por velhos muros de quintas e do outro por um riozinho sossegado.

Uma nuvem cor de rosa flutuava num céu que era todo brandura; das moitas das ervinhas rasteiras subia um aroma de flores desconhecidas e da espessura dos pomares irrompeu um canto de ave antes nunca ouvido...

Seria o rouxinol?...

O cavalo da Princesa andava agora devagar, como se tivesse também ele entrado na harmonia plácida daquela hora divina. E Edeltrudes deixou que ele a levasse, sem mesmo saber para onde... E assim passou por duas lavadeiras que, de joelhos na areia, cantavam com alegria, batendo panos nas pedras. E a Princesa, que não cantava nunca, perguntou de si para si:

--Poder-se-á ser feliz sendo-se pobre?...

Como de propósito, uma das lavadeiras cantou mais alto:

"A felicidade da gente Está na boa consciência..."

Mas quem faz caso do que dizem as lavadeiras, quando nas margens dos rios cantam por cantar? Só os poetas, que procuram em todas as vozes da natureza o segredo da vida para o pôr nos seus versos.

Já as lavadeiras tinham ficado para trás, quando a Princesa topou com um homem cultivando o campo. A enxada subia e descia, revolvendo a terra que cheirava bem. Já de um lado um pouco do terreno, afeiçoado pelo trabalhador, parecia mais bonito, pronto para receber a sementeira. E ela parou um instante a apreciar aquele movimento. Era a poesia do Trabalho que lhe entrava pela alma sem que ela mesma a compreendesse...

Eram os golpes daquela enxada que convertiam a terra em pão e em flores, o que quer dizer, que é das mãos dos homens rudes e humildes que depende a fartura da humanidade e a beleza do mundo!

Mas a Princesa não tinha espírito para agradecer àquele lavrador o conforto e o gozo que ele lhe dava.


Assim foi indo, foi indo, até reconhecer num muro baixinho de tijolo uma das partes laterais do Asilo dos Cegos da cidade. O casarão fica

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