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Audiolivro com Voz IA: Despedidas: 1895-1899 de António Pereira Nobre

Audiolivro: Despedidas: 1895-1899 de António Pereira Nobre

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Despedidas

Prefácio

A fraterna piedade de Augusto Nobre e a saudade amiga de Justino de Montalvão honraram-me com o pedido comovente de algumas linhas que acompanhassem este volume póstumo. Tendo organizado a nota que precede os fragmentos, ao deante publicados, do poema O Desejado, hesitei grandemente em anuir à solicitação que refiro. Temi que malignas malevolências acaso increpassem como de impertinente intrometimento essas linhas sinceras e inocentes. E elas seriam, de facto, com severidade condenáveis, desde que as ditassem pedantescas pretensões de recomendação às delicadas leituras. O nome do poeta não é sómente conhecido; está decisivamente consagrado. Um prosador incorrecto e seco não conseguiria senão tornar-se ridículo, quando tão improcedente estímulo o impulsionasse.

Assim meditava e quasi me resolvia por uma polida escusa, que me magoaria, aliás; porém mais se radicou em meu ânimo o motivo antagónico que me convidara a ceder à cativante sedução do pedido, feito pelo irmão e pelo companheiro.

Lembrava-me e lembrei-me de que fôra eu quem, sem sequer de vista o conhecer, apontou ao público culto o original, promissor talento daquele moço ignorado então.

Concorrendo num efeito de beneficência, aparecera no Porto um volumesinho de versos, colaborado principalmente por académicos, sob o título genérico e designativo de Um bouquet de sonetos. Eu lera as composições contidas na simpática colecção e prestei preferente cuidado àquelas que a novos, sem notoriedade ainda, pertenciam. Entre essas, primordialmente sobressaía o soneto de Antonio Nobre, nome que eu havia notado já, por subscrever, em revistas literárias de colegiais, infantilidades onde perpassava uma réstia do fulgor divino. Fundara, por esse tempo, um diário de propaganda política A Discussão; na secção literária da folha estampei um artigo longo acerca do opúsculo que me atraíra o reparo; Gomes Leal replicou-me, com motivo de algumas afirmativas minhas, concernentemente à forma e à essência do género artístico. E no modesto estudo com que momentaneamente quebrei, confundindo, a monotonia acre das acerbas recriminações partidárias, indiquei o nome do jovem poeta, como o de alguém que tinha personalidade e viria a ser muito.

Veio, na verdade, a ser muito: tão fino, candidamente malicioso, doce, ingénuo era seu temperamento; tão sincera sua tristeza; tão moderno seu gosto; tão nacionalista seu sentir, na pátria e na família; tão sugestiva sua imaginação, ardorosa e melancólica!

Ora, já quando, na jubilosa plenitude da consciência estética, o escritor preparava em Paris o original definitivo do seu volume , como quer que ao mesmo Paris, cético e arisco na banalidade de uma afetuosidade de superfície, me atirasse uma onda centrífuga do atroz redemoinho, ele mostrou-me que não esquecera as palavras do jornalista portuense, as quais só um mérito possuíam, o de se haverem coadunado com o lealismo de uma emoção espontânea. Na escura rua de Trévise me procurou, abandonando por horas a sua preferida margem-esquerda, de que lhe era tão penoso afastar-se, Antonio Nobre, uma tarde em que eu sofria cruelmente. Esta visita sensibilizou-me; como me encantou a conversação do poeta, pelo tom subtil da melindrosa reserva na consolação, a um tempo caridosa e primorosa, duma alma em carne viva, como a minha por então andava.

Só no Porto novamente me reencontrei, conversando, com Antonio Nobre; de volta do exílio eu, de regresso da ilusão de estâncias salvadoras ele. Ambos viajáramos; ambos conhecêramos a glacial indiferença do homem; o poeta e o político encontravamo-nos na identidade duma amarga desesperança tranquila. Separamo-nos depois de uma hora, melhorados para um instante.

Não o tornei a ver; sabia que ia cada vez pior, neste rude Porto, fatal, física e moralmente, às naturezas suscetivelmente quintessenciadas como a dele. Súbito entrou em minha casa Justino de Montalvão, para que eu estivesse à noite na igreja, a ajudar a conduzir o nosso amigo, no seu caixão, para a sua tarima. Eis o desfecho de tudo.

Nunca me afligiu a minha aridez verbal como agora, em que me daria um orgulho inefável o poder falar do talento deste querido morto com palavras encantadas, que embebessem a leitura numa idealidade sonhada.

Pouso a pena áspera; demasiado dilacerou o papel; o dever da gratidão está cumprido; mas quedaria ainda faina para a crítica perspicaz e expressiva. Como indispensável, tocante elemento informativo, tenho aqui a fazer uma referência ao título do volume, Despedidas. Este título foi escolhido pelo poeta. Criminosa impiedade seria que de outrem emanasse.

Em uma das crises de pungente desânimo que frequentemente o assaltavam no último período da implacável enfermidade a que sucumbiu, pediu ele que, se viesse a morrer antes de poder publicar o seu livro, lhe dessem o título de Despedidas, significando este a sua retirada da vida literária; mas mais tarde deu a perceber claramente que assim o escolhera, por serem as suas últimas poesias, visto que tinha perdido a esperança de cura da doença que o torturava. Ainda só quinze dias antes da data fatal do seu trânsito, quis ele ir para a aldeia, com intenções de passar a limpo todas as suas poesias e de escrever definitivamente O Desejado, que, como se frisa na nota que lhe precede hoje os fragmentos, o poeta tinha todo in mente, mas muito incompleto nos seus cadernos de apontamentos.

Das estas linhas que acima ficam se depreende que jamais lograram os versos que saem agora a lume o ser corrigidos por seu autor. Se imperfeições aqui ou ali acaso os maculem, acate-se o legítimo escrúpulo que não se atreveu a sujeitar o texto a alheia revisão minuciosa. Ele foi recebido como uma herança de coração; com inquieto sobressalto, julgou-se sacrílego que ela não fosse assaz respeitada.

Todavia, esta advertência era indispensável, para obviar a quaisquer reparos que o livro actual pudesse oferecer a uma leitura ou

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