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Audiolivro: Contos de Fialho de Almeida
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CONTOS
PORTO: 1881--TYP. DE A. J. DA SILVA TEIXEIRA 62, Cancella Velha, 62
FIALHO D’ALMEIDA
CONTOS
LIVRARIA INTERNACIONAL DE ERNESTO CHARDRON, EDITOR
Porto e Braga
1881
A Camillo Castello Branco
Acabo de relêr toda a sua obra. Quanto no artista e no escriptor, o talento tem de malleavel, de voluntarioso e de grande--a ironia na sua expansão facetada e cortante, o estylo na elastica elegancia nervosa dos seus moldes plasticos, e a observação no seu processo tenaz de analyse e de critica--tudo nos seus livros se encontra, a mãos plenas, com uma opulencia que deslumbra.
Não sei negar admiração aos homens do seu tamanho, nem lh’a recusarão com sinceridade e justiça os que, como eu, tiverem passado em revista os seus trinta annos de gloriosa e efflorescente actividade.
Peço-lhe que aceite a dedicatoria d’este livro mediocre, que pude elaborar nos ocios de uma vida, cortada de trabalhos e dissabores. Duas cousas me levam a consagrar-lh’o--o intento de amortisar uma divida de gratidão pelo que nos seus livros me foi salutar, e o dever honesto de tirar o chapéo diante do que é superior.
A RUIVA
A taberna do Pescada ficava mesmo em frente ao cemiterio dos Prazeres, e era frequentada pela gente do sitio, especialmente de noite, á hora em que os cabouqueiros e os britadores abandonam os seus trabalhos e entram na cidade, em ruido.
Tratava-se então de levantar um muro de cantaria que fosse como a fachada opulenta da gelida cidade de cadaveres; na planura que medeia entre o cemiterio e as terras, o terreno via-se revolto; os carros de mão jaziam esquecidos; os montes de pedras miudas e de argamassas antigas tornavam penoso o transito. Na lama constante do caminho, eram profundos os sulcos que as seges de enterro deixavam até á porta do cemiterio, escancarada sempre, como a guela d’um plesiosauro faminto.
Em anoitecendo, tudo aquillo era de uma contemplação lugubre e mysteriosa, em que se adivinhava o trabalho de milhões de larvas; o ladrar dos cães tinha um echo desolado, que tornava depois mais sinistro o silencio; a porta fechava-se sem rumor, girando em gonzos discretos, e uma luz esmaecia na treva, no fundo dos cyprestes e dos tumulos, diante de um santuario deserto, onde o Christo, do alto, olhava vagamente o guarda-vento.
Começavam então a chegar á tasca os guardas encanecidos no mister de receber enterros, graves nos seus uniformes fatidicos, os coveiros angulosos e vesgos lançando de si um fetido deleterio; e cada um, dando boas noites á tia Lauriana, ia sentar-se á banca, no seu lugar, chupando pontas de cigarro e pedindo decilitros. Todas as noites a casa se enchia, e o aspecto era sempre o mesmo.
Ao fundo, encostada ao balcão forrado de zinco, a tia Lauriana, mulher de grandes seios e arrecadas, que tinha a especialidade dos pasteis de bacalhau, e pernas masculas sahindo de grosseiras saias de baetilha; ao canto, o cego de chapeirão derrubado, attitude fria, faminta, dolorida e apagada, a rebeca nos joelhos, a manta de riscas ao hombro, a eterna noite nas feições. O grupo dos trolhas junto da porta, discutia o preço das couves e o numero de ventres perfurados com facas de ponta, durante a semana. Zé Claudino tinha a palavra; a sua authoridade indiscutivel de orador popular, fazia-lhe cahir dos labios, como um rosario de sons, as palavras graves, indecorosas, chulas e poeticas, em mixto turbulento e intelligente.
Bebedos extraordinarios fallam de tudo e descrevem parabolas no sólo, com a sombra de seus copos embrutecidos. Dous ou tres embirram com a sombra.
--Mette-te commigo, resmungam; cahe n’essa, minha tyranna!
--A velhaca, commentam, tem agora a mania de ir adiante de mim. Esta manhã era atraz. Mas não me larga! Bebeda!
--Era o que me faltava! Sucia de marmanjos!
E insistentes, aos zig-zagues:
--Persegue-me anda, persegue-me, que levas dois butes.
--Lá isso, ouve-se outro dizer na rua, lá isso, não digo eu... Que elle ha um Deus que nos governa: é boa!
Eu entrava, comprimentando os velhos conhecimentos.
--Ditosos olhos, estudantinho! dizia um.
--Ó seu casaca! fazia outro.
--Seja bem apparecido e pague-nos dois dedos de marufo.
Um velho fressureiro, com o olho esgazeado de sicario experiente, tocando-me o braço com a sua mão ensanguentada, ia aconselhando baixo:
--Prove-me do branco, doutor; prove-me do branco que é uma reinação! Com um pastelinho, não lhe conto nada...
Aquelles eram os meus amigos, perigosos amigos contrahidos na intimidade do vicio e no surdo deboche das tascas.
Sentava-me. A Lauriana vinha, sorrindo, servir-me; e o seu olho pardo, sequioso, acariciava a brancura do meu pescoço, appetecia os meus cabellos de um louro claro, tons insipidos, sob as abas do chapéo esburacado. O seu halito empestava a dez passos, trazido nas azas do s
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