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AudioLivro: Contos de Eça de Queirós
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CONTOS
PORTO--Imprensa Moderna
EÇA DE QUEIROZ
CONTOS
TERCEIRA EDIÇÃO
PORTO
LIVRARIA CHARDRON, DE LELO & IRMÃO, EDITORES--RUA DAS CARMELITAS, 144
1913
Todos os direitos reservados
Obras de EÇA DE QUEIROZ
- O Crime do Padre Amaro, 1 vol. 1$200
- O Primo Bazílio, 1 volume 1$000
- O Mandarim, 1 volume 500
- Os Maias, 2 grossos volumes 2$000
- A Relíquia, 1 grosso volume 1$000
- Correspondência de Fradique Mendes, 1 volume 600
- A Ilustre Casa de Ramires, 1 volume 1$000
- A Cidade e as Serras, 1 volume 800
- Contos, 1 volume 600
- Prosas Bárbaras, 1 volume 600
- Cartas de Inglaterra, 1 volume 500
- Ecos de Paris, 1 volume 500
- Cartas Familiares, 1 vol. 500
- Notas Contemporâneas, 1 volume 1$000
- Últimas páginas (manuscritos inéditos), 1 vol. 1$000
- Páginas esquecidas, com um largo estudo de José Sampaio (Bruno) no prelo
- As Minas de Salomão, (tradução), 1 volume 600
- Revista de Portugal, 4 grossos volumes (colaboração) 12$000
A propriedade literária e artística está garantida em todos os países que aderiram à convenção de Berne--(Em Portugal, pela lei de 18 de março de 1911. No Brasil pela lei n.º 2.577 de 17 de Jan. de 1912.)
* * * * *
A obra dispersa de Eça de Queiroz, desde os seus primeiros folhetins na Revolução de Setembro e na Gazeta de Portugal até à sua assídua colaboração na Gazeta de Notícias, do Rio de Janeiro, e na Revista Moderna, é muito vasta, muito variada e encerra algumas das mais maravilhosas páginas do grande e saudoso escritor.
Os seus editores começam, com a publicação do presente volume, a compilação da obra póstuma e dispersa, recolhendo cuidadosamente esse riquíssimo espólio, para o salvar, pelo livro, do esquecimento a que o condenariam a dispersão das fôlhas diárias e a sua efémera vida.
Os Contos compreendem todos os escritos deste género que Eça de Queiroz nos deixou, a partir das Singularidades duma rapariga loura. Os seus primitivos escritos na Revolução e na Gazeta de Portugal, obra mixta de fantasia e de crítica, seguir-se-ão a este em outro volume, já no prelo, e a que uma feliz indicação do sr. Jaime Batalha Reis nos revelou o próprio título que o autor determinara dar-lhe: Prosas Bárbaras.
Mais três volumes serão destinados a coligir as suas correspondências para os jornais brasileiros, conservando-se-lhes como títulos as rubricas sob que ali eram publicadas: Cartas de Inglaterra, Ecos de Paris e Cartas Familiares; e outros dois encerrarão a sua copiosa vária, onde se misturam impressões de literatura e de arte, artigos sobre política geral, estudos biográficos, notas de viagem, ensaios, críticas, polémica, etc.
Completará esta série um derradeiro volume com o precioso inédito do S. Cristóvão, tal como o admirável artista o deixou: um esbôço magnífico, um verdadeiro improviso, traçado com largueza numa primeira factura pronta e fluente, onde a sua imaginação e a sua prosa brotam em jorros impetuosos e borbulhantes, em contrário da falsa lenda que fazia de Eça de Queiroz um criador moroso, e um escritor sem espontaneidade.
A título de curiosidade, para mostrar o poder de desenvolvimento e ampliação das suas faculdades imaginativas e como um exemplo dos seus processos de trabalho, inserimos no presente volume o conto intitulado Civilização, que o autor, amplificando-o, transformou depois na deliciosa novela A Cidade e as Serras.
Ao terminar estas linhas, os editores cumprem o grato dever de testemunhar o seu reconhecimento ao sr. Francisco Ramos Paz, co-proprietário da Gazeta de Notícias, do Rio de Janeiro, que, com o mais vivo interesse pela publicação dos escritos dispersos de Eça de Queiroz, lhes forneceu obsequiosamente toda a vasta colaboração do ilustre romancista no importante jornal fluminense.
Pôrto, 1903.
Lelo & Irmão.
SINGULARIDADES DE UMA RAPARIGA LOURA
I
Começou por me dizer que o seu caso era simples--e que se chamava Macário...
Devo contar que conheci este homem numa estalagem do Minho. Era alto e grosso: tinha uma calva larga, luzidia e lisa, com repuxos brancos que se lhe erriçavam em redor: e os seus olhos pretos, com a pele em roda engelhada e amarelada, e olheiras papudas, tinham uma singular clareza e rectidão--por trás dos seus óculos redondos com aros de tartaruga. Tinha a barba rapada, o queixo saliente e resoluto. Trazia uma gravata de cetim negro apertada por trás com uma fivela; um casaco comprido côr de pinhão, com as mangas estreitas e justas e canhões de veludilho. E pela longa abertura do seu colete de seda, onde reluzia um grilhão antigo, saíam as pregas moles de uma camisa bordada.
Era isto em setembro: já as noites vinham mais cedo, com uma friagem fina e sêca e uma escuridão aparatosa. Eu tinha descido da diligência, fatigado, esfomeado, tiritando num cobrejão de listas escarlates.
Vinha de atravessar a serra e os seus aspectos pardos e desertos. Eram oito horas da noite. Os céus estavam pesados e sujos. E, ou fosse um certo adormecimento cerebral produzido pelo rolar monótono da diligência, ou fosse a debilidade nervosa da fadiga, ou a influência da paisagem escarpada e árida, sob o côncavo silêncio noturno, ou a opressão da electricidade, que enchia as alturas--o facto é que eu--que sou naturalmente positivo e realista--tinha vindo tiranizado pela imaginação e pelas quimeras. Existe, no fundo de cada um de nós, é certo,--tão friamente educados que sejamos--um resto de misticismo; e basta às vezes uma paisagem soturna, o velho muro de um cemitério, um ermo ascético, as emolientes brancuras de um luar, para que esse fundo místico suba, se alargue como um nevoeiro, encha a alma, a sensação e a ideia, e fique assim o mais matemático ou o mais crítico--tão triste, tão visionário, tão idealista--como um velho monge poeta. A mim, o que me lançara na quimera e no sonho, fora o aspecto do mosteiro de Rastelo, que eu tinha visto, à claridade suave e outonal da tarde, na sua doce colina. Então, em que
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