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Audiolivro IA Voz: Annos de Prosa; A Gratidão; O Arrependimento de Camilo Castelo Branco

Audiolivro: Annos de Prosa; A Gratidão; O Arrependimento de Camilo Castelo Branco

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ANNOS DE PROSA.

DISCURSO PROEMIAL.

Altíssima é a missão do escritor, e a do romancista principalmente. O mestre Ignácio da cartilha velha, amoldurada às necessidades do século, é o romancista. Mal hajão os sacerdotes das letras derrancadas que vendem peçonha em lindos cristais, e desfloram as almas em luxuriante florescência da sua primavera. O mau romance tem afistulado as entranhas d'este país. Não há fibra direita no coração da mulher que bebeu a morte, e — pior que a morte — algumas dezenas de gallicismos no que por aí se escreve e copia. O anjo da inocência foge de certos livros, como os editores de certos autores. A candura virginal de uma menina de quinze annos é a cousa mais equívoca d'este mundo, se a menina leu cousa em que os pedagogos do coração a ensinaram a conhecer-se, antes que a experiência a doutrinasse.

Para cúmulo de infortúnio, Portugal é um país onde se está lendo muito.

Acontece aos estômagos famintos, quando se lhes depara alimento bom ou mau, assimilarem-no com tamanha sofreguidão, que o encruamento do bolo, e o marasmo são inevitáveis. Assim e por igual teor, quando os Lucullos e Apícios das letras expõem à voracidade pública as suas iguarias estragadas, a fome de aprender a vida nos romances locupletá-se com tamanha intemperança, que o resultado e as dispepsias espirituais, tormento de angústias vomitivas, que fazem descer o coração ao lugar do estômago, e subir o estômago ao lugar do coração.

Eu tenho assistido a esta deslocação de vísceras com lágrimas nos olhos, enxutos para tudo o mais. Muitas vezes tenho perguntado às velhas se isto assim era no tempo d'elas. Faz dó ver a consternação com que algumas expedem um gemido, uníssono com o assobio da pitada! Compunge ver rolar a lágrima preguiçosa do olho desvidrado d'outra, que se recorda da honestidade com que foi amada pelo seu quinto amante!

Há cinquenta anos que as senhoras não liam romances, por uma razão cujo descobrimento me custou longas vigílias: — não sabiam ler. Algumas, rebeldes à vontade paternal, conseguiam soletrar e escrever à tia uma carta em dia de anos, copiada do Secretário português de Candido Lusitano. Os pais aceitavam com repugnância aquelle abuso de inteligência, e castigavam a filha, forçando-a a um trabalho literário semanal: escrever em cada segunda-feira o rol da roupa. Este sistema penal tinha só a vantagem de tirar ao vício os enfeites da inteligência, reduzindo-o à essência bruta de sua nudez primitiva. Já não era pouco para exemplo e edificação das almas. O melhor moralista será aquelle que despir o delito do coração das galas que lhe veste o desejo, e o cobrir de farrapos repulsivos.

Por esses tempos, e nos dez anos seguintes, os propagandistas da corrupção tentaram exercitar o seu malefício, vertendo para péssima linguagem portuguesa novelas francezas, que transposeram as fronteiras no couce da bagagem do Junot.

Em 1814, a imoralidade, até esse ano sopeada pela impertinente virtude das novelas, tais como A virtude recompensada e o Escravo das paixões, quebrou as ferropesas, e despejou do regaço dissoluto a versão de Tom Jones, o Sophá, o Candido, e quejandas faúlas incendiárias, que pegariam nos corações, se a manteiga e o pão das tendas não esfriassem a força comburente d'essa droga, que acirrava os paladares anthropophagos d'aquelle festim de 1793.

Bemdita e louvada seja a ignorância! Os romances francezes, até 1830, encontraram as almas portuguesas hermeticamente calafetadas. Até esse ano infausto, a mulher era o anjo caseiro, a alma da despensa, a providência da piúga, e sobre tudo, a fêmea do homem, qual Jehovah a fizera d'uma costela do mesmo.

O salão era um como trintário cerrado, onde, a espaços, uma gosmenta matrona espirrava, e a sociedade, a cabecear de sono, surgia estremunhada, dizendo: Dominus tecum. A menina casadeira não se erguia de ao pé da mãi. O noivo mirava-a de longe em felina beatitude; e, no auge da sua casquilha audácia, piscava-lhe a furto o olho, onde reslumbrara a paixão.

Não havia então d'estes homens mulherengos, que alambicam a parlenda açucarada, coando por ouvidos incautos o veneno do estilo, que é o mais corrosivo de quantos há na toxicologia do amor. A mulher actual é quasi sempre vítima da retórica requentada do romance, que esteril peralvilho lhe encampa como cousa de sua alma. Algumas conheço eu que resvalaram ao abismo da perdição pela rampa de um advérbio euphonicamente intruso n'um período arredondado. Este sortilégio da linguagem, que enfeitiça e dá quebranto às mulheres, é apanhado no romance. O coração de certos indivíduos acha-se, muitas vezes, a páginas tantas de tal novella. Sem figurinos e romances, não haveria corpos apresentáveis nem espíritos insinuantes.

Muita gente se espanta das gloriosas aventuras de alguns sujeitos pyramidalmente tolos. Eu não. Tal há que se vos afigura mazorro d'alma, e, não obstante, ao lado de mulheres, dispara descargas de phrases amorosas que é um pasmar. Asneira, dita em nome do coração, não há uma só que não seja laureada. Cada Petrarcha lorpa tem, a final, o seu capitólio.

A mulher, por via de regra, é de seu natural tão boa, sensível e generosa, que chega a recompensar a pertinácia do homem que, primeiro, a nauseou: o segredo d'este paradoxo está na influência contagiosa da tolice. A mulher que fez chorar o tolo, e viu rebentar lágrimas de uma cabeça de granito, cuida que fez o milagre de Moisés na rocha de Horeb. Alliciada pela serpente da vaidade, succumbe como Eva.

Que mudanças!

D'antes o caixeiro principiava sempre a carta de namoro por: Meu amado bem! Agora já diz: Anjo! ou Seraphim! Era d'antes a phrase sacramental do exórdio: Vêr-te e amar-te foi obra de um momento. Agora não é raro encontrar d'estes arrojos: Amar e morrer é meu destino!

E, depois, o malefício do romance não está sômente no plágio irrisório; o pior é quando as imaginações frívolas ou compassivas se entalham os lances da vida phantasiossa da novella, e crêem que a norma geral do viver é essa.

Enquanto a mulher estuda sômente a phrase que applica, bem ou mal, quando a enlouquece a vaidade de parecer o que não é...

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