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eBook Gratuito, Voz IA, Audiolivro: Alexandre Herculano por Jaime de Magalhães Lima

AI Voice AudioBook: Alexandre Herculano by Jaime de Magalhães Lima

Audiolivro: Alexandre Herculano por Jaime de Magalhães Lima

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Ouça o Audiolivro: Alexandre Herculano por Jaime de Magalhães Lima

Um paladino illuminado e moço, intemerato no ardor da juventude e na exaltação da crença que nem o martyrio lograria dominar ou perverter, sonhou a redempção da patria desolada pelas guerras, pela fome, pela oppressão de tyrannias ávidas e corruptas, por hypocrisias sordidas e degradações monstruosas. Sonhou dias de luz e de ventura, de liberdade e de paz, de boa vontade entre os homens, de trabalho honesto, de civismo austero e de religião sublimada, formosura e virtude, o resgate da miseria desalentada e tenebrosa em que se afundava um povo, outrora são e justamente altivo e agora debatendo-se por se salvar e erguer dos abysmos em que a desventura o havia precipitado. E o paladino partiu a conquistar para a patria a fortuna revelada em visões de claridade; e armou-se soldado, transpondo para exercitos do mundo aspirações divinas, a todos os perigos sujeitando a existencia ephemera, sem que algum fosse capaz de lhe turvar a fé.

Combateu. Foi vencido. Em vez de palmas de triumpho, recebeu as penas do exilio. Desterrado da «terra cara da patria», que saudou entre a dôr, verteu lagrimas de «saudade longiqua sobre as ondas do mar irriquieto», chorando o

«Berço do seu nascer, sólo querido,
Onde cresceu e amou e foi ditoso,
Onde a luz, onde o céu riem tão meigos,
Seu pobre Portugal..................

Proscripto e errante, entre as brumas do norte,

«.......................as auras puras,
O murmurar do arroio, o canto da ave,
O fremito do bosque, o grato aroma
E o vistoso matiz do ameno prado,
O lago quedo a reflectir a lua,
As montanhas tão ricas de mysterios,
De éccos, de sombras, de tristezas santas:»

isso tudo que eram encantos da sua terra, trazia-lh'o ante os olhos, cruelmente, a memoria inexoravel.

«..................A dôr está no coração do profugo
Como um cadaver hirto quando espera
De noite, em leito nú, que á tumba o desçam.
A dôr aqui é gelida, immutavel;
Pousa em labios alheios que sorriem
E até em sorrir nosso; está sentada
Ao pé do umbral do tecto que nos cobre,
Embebida na enxerga do repouso,
Entranhada no pão que nos esmolam,
Enroscada qual cobra peçonhenta
No nodoso bordão do peregrino,
E em toda a parte e em todo o tempo é nossa.»

Embora

«Sob as azas do amor abrigue o Eterno
Homens, nações e o mundo; o amor por elle
Nasce, cresce, avigora-se enredado
Com os beijos da mãe, com sorrir amigo
De nossos paes e irmãos, ensina-o a tarde,
O por do sol da nossa terra, o choupo
Da nossa fonte, o mar que manso geme,
Nosso amigo da infancia, em praia amiga.»

Soffreu o supplicio da revolta impotente, algemada em prisões inexpugnaveis, e entenebreceu-lhe o espirito a turbação negra da impiedade e da duvida, a derrota da fortaleza do proprio coração, mais cruel para o crente do que a ruptura de todos os laços d'affecto imposta pela violencia estranha. Para o proscripto, quando tudo o que amava se converteu em sombra, a cada passo evocada pela lembrança desperta em mágoas,

«Quando em confuso passado apenas surge
Qual fumo tenuissinio ou phantasma
Á meia noite visto, á luz da lua,
Ao longe, entre arvoredo, quando o sopro
Da tempestade assobiou nas trevas
Pela antena da náu do vagabundo;
Quando a dôr sua em olhos d'ente vivo
Não achou uma lagrima piedosa,
E nos seus proprios são vergonha as lagrimas,
Quando, se 'inda as derrama, ellas gotejam
Não sobre seio que as esconda e enxugue,
Mas sobre a vaga que se arqueia, e passa
Sem as sentir; então o soffrimento,
Filho de longo padecer, converte
O coração do desditoso em marmore,
Onde nunca penetra um puro affecto,
Onde o nome de Deus sossobra e morre
Entre o bramir de maldições e pragas.»

Ao rigor da desventura juntou-se a agonia do desfallecimento. Não a morte! Porque de toda a oppressão o sonho renascia. Para os loucos d'amor que por amor combatem, os golpes da fatalidade ateiam a exaltação em vez de a suffocarem, e nem o nome de Deus jámais «sossobra e morre», nem as pragas e maldições respondem aos flagellos da desgraça, sem que logo as condemne e cale uma outra voz intima e soberana. Fortificam-se nas provações. Amarguras da alma e mortificações do corpo, pobreza extrema, abandonno sem lenitivo, o opprobrio da derrota, o insulto dos vencedores, torturas dos inimigos e a altivez dos ricos, em vão passaram pelo vencido. Perdido na solidão de ilhas inhospitas para o seu coração a trasbordar de tristeza, não houve adversidade que lhe vergasse o animo, inflexivel na firmeza de combater e na confiança da victoria.

E cantava, o peregrino! As tribulações incendiavam-lhe o genio. Esse mesmo sangue denegrido pelas pedras contundentes d'asperos caminhos creava e alimentava flores altas e resplendentes de celeste pureza. O peso das armas não partiu as cordas da lyra. Ia occulta e guardada no seio, murmurando de continuo seus gemidos e preces. Nem o fragor das batalhas e as blasphemias atrozes de luctas inhumanas lhe perturbariam a harmonia religiosa. No soldado habitava o poeta, e não foi necessario que o soldado pousasse o fusil, para que o poeta deferisse apaixonadamente a voz grandiloqua.

Advinhava o «dia de ventura» que o destino lhe reservava.

O tempo justificou-lhe a aprehensão. Pela audacia heroica de guerreiros destemidos, a que o sonhador foi juntar-se, pelejando as suas duras pelejas, os desterrados voltaram «ás plagas da saudade e á terra dos seus sonhos», e de novo avistaram «os gestos tão lembrados, os campos tão risonhos, o tecto amigo da infancia, a fonte que murmura, o céu puro da patria», que no exilio haviam chorado, consumidos de saudade.

Ah, a sua patria! A sua desvairada patria!... O poeta imaginava trazer-lhe legiões angelicas para a abençoarem d'infinitas bençãos, e trazia-lhe apenas um bando de homens, muitos quasi santos, todos denodados, e muitos outros fracos porque á intrepidez do braço

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