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Audiolivro IA: A brasileira de Prazins: cenas do Minho. por Camilo Castelo Branco

Audiolivro: A brasileira de Prazins: cenas do Minho. por Camilo Castelo Branco

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A BRAZILEIRA DE PRAZINS

SCENAS DO MINHO

INTRODUÇÃO

Entre as diversas moléstias significativas da minha velhice, o amor aos livros antigos--a mais dispendiosa--leva-me o dinheiro que me sobra da botica, onde os outros achaques me obrigam a fazer grandes orgias de pilulas e tizanas. E, quando cuido que me curo com as drogas e me illustro com os archaismos, arruino o estomago e enferrujo o cerebro em uma caturrice academica.

Constou-me aqui ha dias que a snr.ª Joaquina de Villalva tinha um gigo de livros velhos entre duas pipas na adéga, e que as pipas, em vez de malhaes de pão, assentavam sobre missaes. O meu informador denomina missaes todos os livros grandes; aos pequenos chama cartilhas. Mandei perguntar á snr.ª Joaquina se dava licença que eu visse os livros. Não só m'os deixou vêr, mas até m'os deu todos--que escolhesse, que levasse. Examinei-os com alvoroço de bibliomano. Elles, gordurosos, humidos, empoeirados, pareciam-me seductores como ao leitor delicadamente sensual se lhe figura a face da mulher querida, oleosa de cold-cream, pulverisada de bismutho.

Havia sermonarios latinos, um Marco Marullo, tres rhetoricas, muitas theologias moraes, um Euclides, commentarios de versões litteraes de Tito Livio e Virgilio. Deixei tudo na benemerita podridão, tirante uma versão castelhana do mantuano por Diego Lopez e um muito raro Entendimento literal e constrviçam portugueza de todas as obras de Horacio, por industria de Francisco da Costa, impresso em 1639.

Disse-me a dadivosa viuva de Villalva que os livros estavam na adéga, havia mais de trinta annos, desde que seu cunhado, que estudava para padre, morrêra ethico; que o seu homem--Deus lhe falle n'alma--mandára calear o quarto onde o estudante acabára, e atirou para as lojas tudo o que era do defunto--trastes, roupa e livralhada. Contou-me isto seccamente do extincto cunhado, ao mesmo tempo que roçava com a mão fagueira o ventre gravido de uma gata malteza que lhe resbunava no regaço, passando-lhe pela cara a cauda em attritos d'uma flacidez de arminho. E eu que dedico aos bichos um affecto nostalgico, uma sensibilidade retroactiva, um atavismo que me retrocede aos meus saudosos tempos de gorilha, olhava para a gata que me piscava um olho com uma meiguice antiga--a das meninas da minha mocidade que piscavam. Onde isto vai!

A snr.ª Joaquina, para me obrigar a um eterno reconhecimento, offereceu-me uma das crias da sua gata que andava para cada hora e se chamava Velhaca--ajuntou com a satisfação de quem completa um esclarecimento interessante. Agradeci o por vindouro filho da Velhaca, fiz uma caricia no dorso crespo da mãe, que m'a recebeu familiarmente, e sahi com os livros velhos empacotados em duas bulas de 1816 e 1817 que a snr.ª Joaquina, com um riso sceptico, indisciplinado, me disse serem do tempo dos Affonsinhos.--Porque o seu sogro, accrescentou, era um asno ás direitas que comprava a bula para poder comer carne em dia de jejum; e, sem que eu a provocasse a vomitar heresias, disse que os padres vendiam a bula e compravam a carne; e, ajuntando á heresia um anexim de limpeza muito duvidosa, disse o que quer que fosse a respeito dos peccados que entram pela bocca.

Depois informaram-me que esta viuva, bastante estragada no moral e ainda mais no physico, andára de amores illicitos com um escrivão do juiz de paz, o Barroso, um dos 7:500 do Mindello, que lêra o Bom senso do cura João Meslier, e a saturára de má philosophia, e tambem a esbulhára de parte dos seus bens de raiz e do melhor da sua riqueza--a Fé, o bordão com que as velhas e os velhos caminham resignados e contentes para os mysterios da eternidade.

Logo que cheguei a casa, entrei a folhear as paginas dos dous livros, preparado para o dissabor de encontral-os mutilados, defeituosos, com folhas de menos, comidas pelas ratazanas collaboradoras roazes do gallicismo na ruina da boa linguagem quinhentista. Folheei o Entendimento literal e constrviçam até paginas 154, e aqui achei um quarto de papel almaço amarellecido, com umas linhas de lettra esbranquiçada, mas legivel e regularmente escripta. O contheudo do papel, onde se conheciam vincos de dobras, era o seguinte:

José, teu irmão, quando eu hoje sahia da Igreja, onde fui pedir a Nossa Senhora a tua vida ou minha morte, disse-me que eu não tardaria a pedir a Deus pela tua alma. Eu já não posso chorar mais nem rezar. Agora o que peço a Deus é que me leve tambem. Se não morrer, endoudeço. Perdoa-me, José, e pede a Deus que me leve depressa para ao pé de ti.

                         Martha.

Não é preciso ser a gente extraordinariamente romantica para interessar-se, averiguar, querer noticias das duas pessoas que tem n'estas linhas uma historia qualquer, mais ou menos vulgar. Occorreu-me logo que o estudante, a quem o livro pertencera, tinha morrido na flôr dos annos. Além d'isso, na margem superior do frontespicio do volume, está escripto o nome do possuidor--José Dias de Villalva, e a carta é dirigida a um José. Conclui ser o cunhado da viuva quem recebêra a carta.

Voltei a casa da snr.ª Joaquina, muito açodado, como um anthropologista que procura um dente pre-historico, e perguntei-lhe se o seu cunhado se chamava José Dias; e se tinha alguma conversada, quando morreu.--Que sim, que o cunhado era José Dias e que morrêra pela Maria da Fonte.

--Pois elle amou a Maria da Fonte?--perguntei com ardente curiosidade historica, para esclarecer a minha patria com um episodio romanesco das suas guerras civis. Ella sorriu e respondeu:

--Agora! Quer dizer que o meu cunhado morreu quando por ahi andavam os da Maria da Fonte a tocar os sinos e a queimar a papellada dos escri

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