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AudioBook: Ás Mulheres Portuguêsas by Ana de Castro Osório
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Anna de Castro Osorio
Ás mulheres Portuguesas
LISBOA LIVRARIA EDITORA VIUVA TAVARES CARDOSO 5--LARGO DE CAMÕES--6
1905
Typ. a vapor da Emprêsa Litteraria e Typographica
178, Rua de D. Pedro, 184--Porto
Na incerteza pelo futuro, característica muito acentuada do atual momento histórico, não há ninguém, por mais ferozmente que se ensimesme ou por mais alto que se alheie em sonhos e ficções, que se não surpreenda, um dia, meditando, transido de dúvidas, nalgum dos múltiplos problemas que agitam a alma moderna.
São tantos e tão variados, tão dolorosos por vezes, recordam tanta lágrima, evocam tanta dor sofrida pela mísera humanidade--que em vão lhe quer fugir e se debate e grita de desespero, ou ri de inconsciente gozo, conforme é alçada aos ares em triunfo ou mergulhada na indiferente desgraça--que o nosso espírito se detém e pergunta, no augusto silêncio da própria consciência--se vale a pena existir num mundo assim?!
Todos os sinceros têm formulado esta interrogação: uns, fortificados pelo pensamento, no desejo de remediar o mal, concebem a esperança de trazer, embora com o sacrifício próprio, alguma melhoria à sociedade; outros desanimam, a mesma dor os mata ou anula para o trabalho paciente do futuro.
Mas o desânimo e a renúncia é uma dupla falta--pelo que deixamos de fazer e pelo que consentimos que os egoístas e os sem escrúpulos façam impunemente.
Para todos é de responsabilidade a hora presente, na qual, a par de muito crime e muita injustiça, um belo e salubre movimento se opera por todo o mundo.
Ninguém se poderá isentar dessa tremenda responsabilidade moral, que tanto cabe ao homem como à mulher, a esta mais ainda porque nas suas mãos, com a educação da infância, que lhe pertence, está confiado o futuro.
À mulher, pois, ou seja pobre operária que mal ganha para o pão de cada dia, ou opulenta dama avérgada ao peso dos seus deveres sociais; às mães que têm filhos a entrar na luta pela existência e que ansiosos esperam o conselho, que os guie para a felicidade e para o bem, dos lábios que lhes ensinaram as primeiras palavras e lhes deram os primeiros beijos; como às raparigas que, mal iniciadas nos seus deveres, têm de arcar com um futuro de que nem chegam a compreender as responsabilidades; a todas, repetimos, corre o dever de se deterem, ao menos um instante, a pensar no remédio a dar a tanto mal e a tanta iniquidade.
Por isso é às mulheres, e principalmente às mulheres do meu país--que tão insuficientemente são educadas para serem as companheiras e as mães do homem moderno--que me dirijo.
Possa este modesto trabalho corresponder dalgum modo às necessidades espirituais da alma feminina, que desperta enfim para uma nobre e mais útil missão social.
FEMINISMO
I
SER FEMINISTA
Feminismo: É ainda em Portugal uma palavra de que os homens se riem ou se indignam, consoante o temperamento, e de que a maioria das próprias mulheres correm, coitadas, como de falta grave cometida por algumas colegas, mas de que elas não são responsáveis, louvado Deus!...
E, no entanto, nada mais justo, nada mais razoável, do que este caminhar seguro, embora lento, do espírito feminino para a sua autonomia.
O homem português não está habituado a deparar no caminho da vida com as mulheres suas iguais pela ilustração, suas companheiras de trabalho, suas colegas na vida pública; por isso as desconhece, as despreza por vezes, as teme quasi sempre.
Mas siga a mulher o seu caminho, intemerata e digna, sem recear o isolamento como o ridículo--que nem um nem outro atingem o verdadeiro mérito e a sã razão.
Tenha o coração alto e o espírito alicerçado; não faça do amor o ideal único da existência nem o seu único fim. Pense no trabalho e no estudo, e deixe que as suas faculdades afetivas se desenvolvam livremente, ou se não desenvolvam mesmo, que isso deve ser indiferente à sociedade. Cuidados de amor devem ser cuidados tão absolutamente pessoais e íntimos, que não os assoalhar deveria ser a maior prova de pudor.
Tal não sucede, porém. Toda a gente publica os seus afetos, puros ou impuros, verdadeiros ou falsos; e, por mais absurdos, por mais indesculpáveis que sejam, despertam mais simpatia e compaixão do que verdadeiras desgraças sociais. Na vida real, como no drama, no romance, na poesia, ou na música, só cai bem no gosto do público o amavío voluptuoso do amor sentimental.
Assim o quer a sucessão de séculos, em que a mulher foi a reclusa do convento ou da família, tendo na vida um só fim--agradar.
Assim o estima o homem, que fez do amor carnal o seu culto e da mulher a sacerdotisa desse culto. Mas sacerdotisa que se torna em escrava, deusa que se cobre de injúrias e se lança ao monturo das velhas coisas inúteis, logo que o capricho, a paixão dos sentidos, foi como o fumo desfeito no céu sem nuvens.
O homem, passada a idade da poesia, segue triunfante o caminho da existência, sem mais lhe importar com a sua inspiradora. Da deusa ideal dos seus sonhos faz a cozinheira hábil, a dona de casa ignorante e útil, misto de costureira e governanta, a mãe paciente e sofredora dos filhos que são o seu orgulho.
A mulher, em geral, é, quando esposa, a companheira só para a vida banal e mesquinha--que nem por sombras deve abordar os graves pensamentos que preocupam o marido!...
Porque quando o homem, por acaso, encontra méritos intelectuais que o confraternizem com um indivíduo do sexo feminino, é raríssimo confessar que a sorte lho deu para companhia da sua vida.
Mas quantas vezes se enganam na escolha, e, por castigo, na companheira ignorante e inferior que procuram para seu descanso, não encontraram, hipocritamente velados por uma hábil ingenuidade, todos os baixos instintos dos seres inferiores?!
Quantos, procurando nas ignorantes criaturinhas que nunca se poluíram com o estudo e com o trabalho, as previdentes mães de família, destinadas a fazer prodígios de economias, de método e de arranjo, não depararam com desditosas mulheres roídas de ambições e vaidades, tanto mais ásperas quanto maior é a sua impotência para as realizar--a fantasia só presa nas galanterias e modas, inúteis para os trabalhos caseiros como para outro qualquer, sofrendo e fazendo sofrer todos os seus por não possuir o que deseja e vê às outras, transformando os lares em gehenas onde feras da mesma raça se espalham e abocanham?!
Quando ao homem for dado encontrar facilmente a mulher sua igual, compreenderá quanto era louco preferindo-lhe esses pobres seres que não têm
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