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AI Voice AudioBook: Trovas do Bandarra by Gonçalo Anes Bandarra

AudioBook: Trovas do Bandarra by Gonçalo Anes Bandarra

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TROVAS DO BANDARRA,

NATURAL DA VILLA DE TRANCOSO,

APURADAS, E IMPRESSAS POR ORDEM DE UM GRANDE SENHOR DE PORTUGAL,

Offerecidas aos verdadeiros Portuguezes devotos do Encuberto.

NOVA EDICÇÃO

A que se ajuntão mais algumas nunca ate ao presente impressas.

BARCELONA: M.DCCCIX.

Na presente Edicção houve unicamente a tenção de satisfazer aos desejos, e cuidadoso empenho dos que buscão haver estas Profecias, e conservar dellas a todo custo um exemplar incorrupto. Isto procurãmos com a maior diligencia, referindo nos escrupulosamente, e com toda a pontualidade á que se publicou em Nantes em o anno de 1644, por Guillelino do Monnier, Impressor d'el Rei; e não se encontrará mudança, nem a menor alteração em accrescentamento, ou falta, porque; tudo vai como nella está, por excepção de alguns poucos, e leves descuidos da impressão, que pareceu acertado emendar. E em quanto ás ineditas, que ajuntamos no fim, por nos serem requeridas de alguns sujeitos, seguimos as melhores, e mais apuradas copias, de quantas buscámos com curiosidade, e pudemos descobrir, preferindo sempre as mais antigas, e que conservadas pela tradição continuada reputámos por mais fide dignas, além de nos serem communicadas por pessoas graves, e de authoridade, que as guardão em varios lîvros de curiosidades antigas. Todas as que aqui vaõ temos por verdadeiras, e taõ suas, e merecedoras de estimaçaõ como as ímpressas; pois no tom, e maneira de enunciar as couzas, que revela, assim como na locuçaõ, e estylo em nada se differenção dellas.

Pelo que toca ao seu Author, bem conhecido he o seu nome, assim como a bem merecida reputação, e credito que tem entre todos por estas suas mesmas Profecias tam decantadas como cheias de mysterio, e verdadeiras; que ninguem ha que delle, e dellas faça menção, sem que seja fazendo lhes conciliar o grande respeito, e veneração, que se lhes deve. De sua vida nenhuma couza aqui ha que dizer, podendo se dizer muitas, porque ninguem de quantos lem estes escriptos a ignora; a anda em muitos livros, que todos podem haver mui facilmente. Foi elle o Nostradamus dos Portuguezes, como antigas memorias nos certificão, no tempo d'el Rei D. João o III. de Portugal, e porventura ainda mais celebre por seus ditos, maravilhosos vaticinios, e prognosticos, do que foi aquelle, e pelos mesmos annos na França; porque se com particular distinção obteve este os comprimentos de Henrique II., e da Rainha Catharina de Medicis, sua mulher, e de seus filhos; as honras, e estimações do Duque de Saboia Manoel Feliberto, e da Duqueza Margarida de França; e os prezentes de Carlos IX. mereceu o nosso os applausos de uma Nação inteira assim de grandes como pequenos, de illustres, e plebêos, sabios, e indiscretos, e continuados por tamanho espaço, quanto vai desde quando viveu até nossos tempos, e sempre o será, em quanto o Mundo durar, que tanto hade viver na memoria dos homens.

Assim o sentiu aquelle raro engenho, e o mais accreditado Pregador o P. Antonio Vieira, consagrando lhe particular affecto, e chegando a affirmar, que era mui grande, e mui alumiado Profeta. Antonio de Souza de Macedo faz delle particular memoria por estas palavras na Lusitania Liberata a pag. 735.--"Regnante in Lusitania Joanne 3º. anno Domini 1550. in nobili oppido Trancoso decessit celeber Gondiçalus Annes Bandarra, qui decantatos á multis annis reliquit versus de Lusitanis eventibus, quorum, ultra nossos, meminit D. Joannes de Horosco, Castelanus in tract, de Vera, et Falsa Prophet. cap. 24." O lugar apontado de D. João de Horosco naõ he do cap. 24., como ali está, mas do cap. 14. do Liv. I., onde a pag. 38. diz assim.--"Y desta manera tuve yo noticia de un çapatero en Portugal, que fue tenido por Profeta." E na glosa marginal accrescenta.--"Este çapatero de Portugal fue en Trancoso dicho Bandarra, y avra este año de 88. quarenta y seis que morio."--Mas he de advertir, que nem um, nem outra acertou no anno da morte de Bandarra, que, conforme escreveu Barbosa Machado na sua Biblioth. Lusitana, foi depois de 1556. Saõ tambem dignos de ver se nos elogios, que lhe tributão D. Nicolaõ Monteiro, Vox Turtur., o P. Vasconcellos no seu admiravel Livro da Restauraç. de Portugal, e outros, que aponta o mesmo Barboza.

Resta antes de concluir mos em agradecimento fazer neste lugar honrada memoria de dous consumados varões, que muito contribuiraõ para gloria do nosso Author. Seja o primeiro D. Vasco Luiz da Gama, V. Conde da Vidigueira, e I. Marquez de Niza, a quem se deve aquella Edicçaõ de Nantes, e nella se diz sómente ser por um grande Senhor de Portugal; e verdadeiramente foi notado de mui nobres, e excellentes qualidades, por onde se faz credor de grandissimos elogios. Occupou mui altos empregos, como o de Almirante do Mar da India, Deputado da Junta dos Tres Estados, e do Despacho das Juntas na Regencia da Rainha D. Luiza, e de seus filhos os Reis D. Affonso VI., e D. Pedro II. sendo Regente, Vedor da Fazenda dos ditos Reis, e Estribeiro Mor da Rainha D. Maria Francisca Isabel de Saboia. Foi Commendador na Ordem de Christo, e do Conselho de Estado, e Guerra, e duas vezes Embaixador a França por El Rei D. João IV., a primeira em 1642, e a segunda em 1646, em que mostrou discripção, prudencia e zelo do bem do Reino, a ultimamente a Roma em obediencia aos Papas Urbano VIII., e Innocencio X. Na Paz, que se celebrou deste Reino com Castela em 1668. teve muita parte, sendo um dos Plenipotenciarios para ella eleito, em que se houve com muita circumspecção.

O outro he D. Alvaro de Abranches da Camera, que antes lhe havia mandado levantar novo sepulchro com seu Epitafio na Igreja de S. Pedro da Villa de Trancozo, trasladando seus ossos de outra baixa, e humilde, em que jazia, e fazendo lhe insculpir por divisa na pedra os instrumentos do officio de çapateiro, que elle havia exercitado. Esta grande honra havia o mesmo Bandarra profetizado nas Quadras 8 e 9 do. III. Corpo das Trovas, Sonho I. por estas mysteriosas palavras:

Vejo, mas não sei se vejo, O certo he, que me cheira, Que me vem honrar á Beira Um Grande do pè do Tejo.

Formas, cabos, e sovelas Lavra

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