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AI Voice AudioBook: A fallencia by Júlia Lopes de Almeida

AudioBook: A fallencia by Júlia Lopes de Almeida

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A FALLENCIA

I

O Rio de Janeiro ardia sob o sol de dezembro, que escaldava as pedras, bafejando um ar de fornalha na atmosfera. Toda a rua de S. Bento, atravancada por veículos pesadões e estrepitosos, cheirava a café cru. Era hora de trabalho.

Entre o fragor das ferragens sacudidas, o giro ameaçador das rodas e os corcovos de animais contidos por mãos brutas, o povo negrejava suando, compacto e esbaforido.

À porta do armazém de Francisco Theodoro era nesse dia grande o movimento. Um carroceiro, em pé dentro do caminhão, onde ageitava as sacas, gritava zangado, voltando-se para o fundo negro da casa:

"Andem com isso, que às onze horas tenho de estar nas Docas!"

E os carregadores vinham, sucedendo-se com uma pressa fantástica, atirar as sacas para o fundo do caminhão, levantando no baque nuvens de pó que os envolvia. Uns eram brancos, de peitos cabelludos mal cobertos pela camisa de meia enrugada, de algodão sujo; outros negros, nus da cintura para cima, reluzentes de suor, com olhos esbugalhados.

Ao cheiro do café misturava-se o do suor daqueles corpos agitados, cujo sangue se via palpitar nas veias entumescidas do pescoço e dos braços.

No desespero da pressa, o carroceiro soltava imprecações, aos berros, furioso contra os outros carroceiros, que passavam raspando-lhe a caixa do caminhão, todo derreado para a aniagem das sacas, respirando a poeirada que se levantava d'elas. Os outros respondiam com iguais impropérios, que os cocheiros dos tilburis, em esperas forçadas, ouviam rindo, mastigando o cigarro.

Os carregadores serpeavam por meio daquilo tudo, como formigas em correição, com a cabeça vergada ao peso da saca, roçando o corpo latejante nas ancas lustrosas dos burros.

Transeuntes recolhiam-se apressados, de vez em quando, para dentro de uma ou outra porta aberta, no pavor de serem esmagados pelas rodas que invadiam as calçadas, resvalando depois com estrondo para os paralelepípedos da rua.

Aqui, ali e acolá, pretinhas velhas, com um lenço branco amarrado em forma de touca sobre a carapinha, varriam lépidas com uma vassoura de piassava os grãos de café espalhados no chão. Com o mesmo açodamento peneiravam-n'os logo em uma bacia pequena, de folha, com o fundo crivado a prego. Era o seu negócio, que aqueles dias de abundância tornavam próspero. Enriqueciam-se com os sobejos.

Assim, em toda a rua só se viam braços a gesticular, pernas a moverem-se, vozes a confundirem-se, chocando nas pragas, rindo com o mesmo triunfo, gemendo com o mesmo esforço, em uma orquestra barulhenta e desarmônica.

A não serem as africanas do café e uma ou outra italiana que se atrevia a sair de alguma fábrica de sacos com duzias d'eles à cabeça, nenhuma outra mulher pisava aquelas pedras, só afeitas ao peso bruto.

Dominava ali o trabalho viril, a força física, movida por músculos de aço e peitos decididos a ganhar duramente a vida. E esses corpos de atletas, e essas vozes que soavam alto num estridor de clarins de guerra, davam à velha rua a pulsação que o sangue vivo e moço dá a uma artéria, correndo sempre com vigor e com ímpeto.

Já de outras ruas descia aquela onda quente, arfante de trabalho, vinha da rua dos Benedictinos e vinha dos armazéns da rua Municipal, todos atulhados de café, que esvaziavam em profusão para os trapiches e as Docas, tornando-se logo a encher famintamente.

Em uma ou outra soleira de porta trabalhadores sentavam-se descansando um momento, com os cotovelos fincados nos joelhos erguidos, salivando o sarro dos cigarros, a saborear uma fumaça, olhando com indiferença para aquela multidão que passava aos trancos e barrancos, na ânsia da vida, num torvelinho de pó e gritaria.

De vez em quando, grupos de rapazinhos, na maior parte italianos, surgiam nas esquinas e percorriam todo o quarteirão, às gargalhadas, enchendo os bolsos com o café das africanas velhas, cujos guinchos de protesto se perdiam abafadas pelo ruído complexo da rua.

Dentro dos armazéns a mesma lufa-lufa.

No de Francisco Theodoro não havia paragem.

O primeiro caixeiro, seu Joaquim, um homem moreno, picado das bexigas, de olhos fundos e maçãs do rosto salientes, gesticulava em mangas de camisa, apressando os carregadores esbaforidos.

À porta, um capataz de tropa, mulato, furava com um furador tubular de aço e latão todas as sacas que saíam, para que se escapasse pela abertura uma mancheia de grãos. Os carregadores apenas retardavam os passos nessa operação, e o café caía cantando na soleira.

Ao fundo, um rapazinho magro e amarelo, o Ribas, apontava num caderno o número de sacas que levavam, rente à escada de mão por onde os carregadores subiam para as tirar do alto das pilhas, correndo depois pelo asfalto desgastado e denegrido do solo.

Tudo era feito numa urgência, obrigada a grande movimento.

Um sopro ardente de vida, uma lufada de incêndio bafejada por cem homens arquejando ao mesmo tempo na febre da ambição, varava todo aquele extenso porão negro, sem janelas, ladeado de sacos sobrepostos e adornado nas vigas sujas do teto por infinita quantidade de teias de aranha, enredadas, como longas sanefas viscosas de crépe russo.

De vez em quando, um ruído de cascata rolava pelo interior do armazém. Era o café, que ensacavam na área do fundo, e que na queda das pás desprendia um pó subtil e um cheiro violento.

Fóra, chicotadas cortavam o ar com estalidos, e pragas rompiam alto, no som confuso, em que vozes humanas e rodas de veículos se amalgamavam com o estrépido das patas dos animais.

Alguns carregadores exhaustos paravam um pouco, limpando o suor, mas corriam logo, chamados pelos olhos de seu Joaquim, que ia e vinha, muito trefego, sungando as calças que lhe escorregavam pelos quadris magros.

"Aviem-se! aviem-se! temos hoje muito que fazer!"

Era o seu estribilho.

E havia sempre muito que fazer naquela casa, uma das mais graúdas no comércio de café.

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