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AI Voice AudioBook: A Casa dos Fantasmas - Volume I by Luiz Augusto Rebello da Silva

AudioBook: A Casa dos Fantasmas - Volume I by Luiz Augusto Rebello da Silva

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A CASA DOS FANTASMAS

EPISODIO DO TEMPO DOS FRANCEZES

2.^a EDIÇÃO

VOLUME I

LISBOA

Empreza da Historia de Portugal Sociedade editora

LIVRARIA MODERNA R. Augusta, 95

TYPOGRAPHIA 45, R. Ivens, 47

1908


A CAMILLO CASTELLO BRANCO

Seja-me licito, amigo, dedicar-lhe este esboço informe, fructo de algumas horas de ocio. Quem melhor, do que o auctor de tantas composições profundas na interpretação da vida, admiraveis na pintura do coração e dos costumes contemporaneos, poderá desculpar o muito, que falta n'este quadro para sair menos imperfeito, e ao mesmo tempo apreciar em um, ou outro traço, os bons desejos e os esforços do auctor?

A epocha, que escolhi, pedia pincel mais fino, e tintas mais vivas. Tentei vencer-me, e desenhal-a. Sei que fiquei mui inferior ao ideal, que tinha concebido, e receio mesmo, que o enfado dos leitores castigue a ousadia do commettimento. Espero, que o seu nome applaudido sirva de escudo e de defensor ao modesto livro, de que elle vae ser o maior ornamento.

Não o consultei para lhe offerecer este testemunho da minha antiga e sincera amisade. Adivinhei a resposta, e ahi entrego em suas mãos mais este orphão, que sae a correr o mundo. Deus lhe conceda a sorte propicia, que elle não merece, mas que ás vezes uma boa sina proporciona mesmo aos menos dignos.

Lisboa, 22 de Janeiro de 1865

Luiz Augusto Rebello da Silva.


A CASA DOS FANTASMAS

I

Uma noite desabrida

Era de tarde. Tinham dado cinco horas, e o dia declinava rapidamente. O mez de maio do anno 1808, anno assignalado de successos estrondosos na peninsula, acabava, como tinha corrido quasi todo, entre diluvios de chuva e ventanias. A noite, cujos primeiros veus já começavam a cobrir as terras baixas, em quanto os derradeiros raios do sol esmoreciam na corôa dos outeiros, avisinhava-se, toldada de castellos de nuvens, que surgiam do sul, listrando o horizonte de barras cinzentas, rasgadas de espaço em espaço pelos clarões dos relampagos.

O ar estava tepido, ou antes quente, e todos os ruidos se iam calando uns após outros. A immobilidade das aguas, que não arrugava o mais leve sopro; a das arvores, cujas copas pareciam petrificadas; e as sombras, que avultavam mais pesadas de instante para instante, revestiam a paizagem de um aspecto gelido. Uma lufada de vento, halito abrazado da tormenta, passava solta por cima dos campos, acamando as hervas altas, destoucando os arbustos, e saccudindo as ramas das oliveiras, dos alamos, e das faias, e ia morrer distante no roncar soturno e rouco dos trovões. Algumas gotas, raras e grossas, caíam então, e a luz, offuscada por mais espessos vapores, sumia-se de subito para reviver depois, mas timida e desmaiada, sem alegria e sem calor. As aves fugiam, cruzando-se e pipitando; a solidão quasi que não tinha echos; e um silencio lugubre precedia a grande voz da tempestade, que ia principiar dentro em pouco.

Apezar das ameaças da atmosphera, um viajante trocando o conchego de povoação commoda pelas inclemencias do tempo, tinha-se despedido da hospitalara casa, aonde jantára, e mettendo o pé no estribo de pau, e apertando as dobras da manta ribatejana, sem escutar os conselhos e vaticinios amigaveis, estimulava a mula com as largas rosetas da classica espora de correia, obrigando-a a espertar o passo por entre os viçosos pampanos, hoje gloria e gala da nobre villa do Cartaxo.

Em breve deixou atraz de si as vinhas, que, a esse tempo, (cultura nascente) apenas verdejavam em uma pequena parte do terreno, que se carrega agora de seus cachos, e achando-se em plena charneca, extendeu os olhos pela bella e vasta planicie, desatada por algumas leguas de ermo, não triste, nem agreste, mas tocado de risonha suavidade, e rodeado de longes tão puros e desafogados, que a alma se consola e refrigera de extender por elle os olhos.

O aroma alpestre das plantas; aquelle pôr do sol entre nuvens; os lamentos da procella ao sul; e o vago indeciso de todo o quadro compunham um espectaculo de opposições tão firmes e tão bellas, que o viajante, quasi sem o querer, se deixou arrebatar por elle, e insensivelmente foi imbebendo a vista nas formosuras rusticas, que de todos os lados o convidavam. Suas feições, de uma gentileza viril e sympathica, não inculcavam tedio ou cansaço, mas impaciencia. A elevada estatura não se encurvava sobre os arções, e as pupillas pretas e cheias de fogo, se a miudo fitavam os trilhos enredados com estreitas fitas sobre o verde sombrio da charneca, denunciavam mais receio de chegar tarde a um ponto dado, do que temor de se ver assaltado pelo temporal no meio da jornada.

A mula, que algumas horas de repouso tinham refrescado, como se adivinhasse os desejos do amo, despejava o passo, e o caminho; mas a noite e a cerração ainda corriam mais. Á claridade baça do crepusculo seguiram-se as trevas; o céu forrou-se todo de negro; e os primeiros furacões bramiram acompanhados de um trovão proximo. A chuva principiava a fustigar de rajadas fortes o rosto do viajante, e a cegar-lhe a estrada inundada dos dias anteriores, e arrombada em diversas partes. A mula, apezar de afouta e vigorosa, atolava-se, tropeçando a miudo. Na ponte da Asseca, a varzea, que ella corta, parecia um immenso paul, cujas aguas a cheia despenhada dos altos empolava com sussurros, que, unidos aos silvos do vento e aos ribombos da trovoada, enchiam de horror e d

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