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AudioBook: Humus by Raul Brandão

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Humus

DO AUTOR

EDIÇÕES DA RENASCENÇA PORTUGUESA

  • O Cerco do Porto, contado por uma testemunha, o Coronel Owen--Prefacio e notas (2.^a ed.).
  • 1817--A Conspiração de Gomes Freire (3.^a ed.).
  • El-Rei Junot (2.^a ed.).
  • Memorias, 1.^o vol. (2.^a ed.).
  • Humus (2.^a ed.).

RAUL BRANDÃO

Humus

O que tu vês é bello; mais bello o que suspeitas; e o que ignoras muito mais bello ainda.

D'um autor desconhecido.

2.^a EDIÇÃO

EDITORES Renascença Portuguesa--Porto ANNUARIO DO BRASIL--RIO DE JANEIRO

AO MESTRE COLUMBANO

A VILLA

13 de novembro

Ouço sempre o mesmo ruido de morte que devagar roe e persiste...

Uma villa encardida--ruas desertas--pateos de lages soerguidas pelo unico esforço da erva--o castelo--restos intactos de muralha que não teem serventia: uma escada encravada nos alveolos das paredes não conduz a nenhures. Só uma figueira brava conseguiu meter-se nos intersticios das pedras e d'ellas extrae succo e vida. A torre--a porta da Sé com os santos nos seus nichos--a praça com arvores rachiticas e um coreto de zinco. Sobre isto um tom denegrido e uniforme: a humidade entranhou-se na pedra, o sol entranhou-se na humidade. Nos corredores as aranhas tecem imutaveis teias de silencio e tedio e uma cinza invisivel, manias, regras, habitos, vae lentamente soterrando tudo. Vi não sei onde, n'um jardim abandonado--inverno e folhas seccas--entre buxos do tamanho d'arvores, estatuas de granito a que o tempo corroera as feições. Puira-as e a expressão não era grotesca mas dolorosa. Sentia-se um esforço enorme para se arrancarem á pedra. Na realidade isto é como Pompeia um vasto sepulchro: aqui se enterraram todos os nossos sonhos... Sob estas capas de vulgaridade ha talvez sonho e dôr que a ninharia e o habito não deixam vir á superficie. Afigura-se-me que estes sêres estão encerrados n'um involucro de pedra: talvez queiram falar, talvez não possam falar.

Silencio. Ponho o ouvido á escuta e ouço sempre o trabalho persistente do caruncho que roe há seculos na madeira e nas almas.

15 de novembro

As paixões dormem, o riso postiço creou cama, as mãos habituaram-se a fazer todos os dias os mesmos gestos. A mesma teia pegajosa envolve e neutralisa, e só um ruido sobreleva, o da morte, que tem deante de si o tempo ilimitado para roer. Há aqui odios que minam e contraminam, mas como o tempo chega para tudo, cada anno minam um palmo. A paciencia é infinita e mete espigões pela terra dentro: adquiriu a côr da pedra e todos os dias cresce uma polegada. A ambição não avança um pé sem ter o outro assente, a manha anda e desanda, e, por mais que se escute, não se lhe ouvem os passos. Na aparencia é a insignificancia a lei da vida; é a insignificancia que governa a villa. É a paciencia, que espera hoje, amanhã, com o mesmo sorriso humilde:--Tem paciencia--e os seus dedos ageis tecem uma teia de ferro. Não há obstaculo que a esmoreça.--Tem paciencia--e rodeia, volta atraz, espera anno atraz d'anno, e olha com os mesmos olhos sem expressão e o mesmo sorriso estampado. Paciencia... paciencia... Já a mentira é d'outra casta, faz-se de mil côres e toda a gente a acha agradavel.--Pois sim... pois sim... Não se passa nada, não se passa nada. Todos os dias dizemos as mesmas palavras, cumprimentamos com o mesmo sorriso e fazemos as mesmas mesuras. Petrificam-se os habitos lentamente acumulados. O tempo moe: moe a ambição e o fel e torna as figuras grotescas.

Reparem, vê-se daqui a villa toda... Lá está a Adelia, o Pires e a Pires como figuras de cera. Ninguem mexe. N'um canto mais escuro a prima Angelica não levanta a cabeça de sobre a meia. Tanta inveja ruminou que desaprendeu de falar. Chega o chá, toma o chá, e apega-se logo á mesma meia, a que mãos caridosas todos os dias desfazem as malhas, para ella, mal se ergue, recomeçar a tarefa. Um dia--uma semana--um seculo--e só o pendulo invisivel vae e vem com a mesma regularidade implacavel--p'ra a morte! p'ra a morte! p'ra a morte!

Passou um minuto ou um seculo? Sobre o granito salitroso assenta outra camada denegrida, e as horas caem sobre a villa como gôtas d'agua d'uma clepsydra. De tanto vêr as pedras já não reparo nas pedras. A morte roda na ponta dos pés e ninguem ouve seus passos. Todos os dias os leva, todos os dias toca a finados. O nada á espera e a D. Procopia a abrir a boca com somno, como se não tivesse deante de si a eternidade para dormir. Tudo isto se passa como se tudo isto não tivesse importancia nenhuma, tudo isto se passa como se tudo isto não fôsse um drama e todos os dramas, um minuto e todos os minutos...

Não há annos, há seculos que dura esta bisca de tres--e os gestos são cada vez mais lentos. Desde que o mundo é mundo que as velhas se curvam sobre a mesma meza do jogo. O jogo banal é a bisca--o jogo é o da morte... O candieiro ilumina e a sombra roe as phisionomias, a magestosa Theodora, a Adelia, a Eleutheria das Eleutherias, o padre. Salienta-se do escuro uma boca que remoe, a da D. Bibliotheca. Os padres exaltam-na, a Egreja exalta a sua caridade, que rebusca a desgraça para lhe dar tres vintens. Só distingo, despegadas dos craneos, as orelhas do respeitavel Elias de Melo e do impoluto Melias de Melo, lividos como dois fantasmas. Ambos regulam a consciencia como quem dá corda a um relogio. Dividas são dividas. Tudo isto parece que fluctua debaixo d'agua, que esverdeia debaixo d'agua. A luz do candieiro ilumina as mãos da D. Leocadia, que põe acima de tudo o seu dever, e que leva para casa uma orfã a quem sustenta e que lhe entrapa as pernas: osseas e seccas enchem a sala toda, o mundo todo...

Não sei bem se estou morto ou se estou vivo... Decorre um anno e outro anno ainda. O relento sabe bem, e o tempo passa, o tempo gasta-as como o salitre aos santos nos seus nichos. Se o desespero augmenta não se traduz em palavras. A D. Procopia odeia a D. Bibliotheca, mas nem ella sabe o que está por traz d'aquelle odio, contid

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