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AI Voice AudioBook: Os Filhos do Padre Anselmo by António José da Costa Couto Sá de Albergaria

AudioBook: Os Filhos do Padre Anselmo by António José da Costa Couto Sá de Albergaria

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Os irmãos da mão negra

O relógio dos Clérigos tinha acabado de fazer soar pausadamente as doze badaladas da meia noite.

O tempo estava brusco e o vento, soprando da barra em frias e cortantes rajadas, punha arrepios nos transeuntes que, levantadas as golas dos casacos e as mãos metidas nos bolsos, seguiam a passo apressado, recolhendo a casa, sob a ameaça de um temporal desfeito.

Era em fins do outono.

As árvores do jardim da Cordoaria, varejadas pela ventania asperrima, despisiam-se das suas últimas folhas amareladas, num agitado e sussurrante protesto de espoliadas.

Quem a essa hora passasse pelo Campo dos Mártires da Pátria, veria, encostado a uma das árvores que orlam o jardim, defrontando com a praça do Peixe, um vulto imóvel e indiferente ao tempestuoso rugir daquela noite agreste e frigidíssima.

Parecia esperar alguém, porque, ao ouvir bater a meia noite no relógio da torre, levou a mão ao bolso e, aproximando-se de um dos candeeiros da iluminação pública, consultou o seu relógio.

—Aquele anda adiantado cinco minutos — murmurou.

E deu alguns passos distraidamente como para iludir a sua impaciência.

Agora, que o podemos ver ao reverbero do lampião, notaremos que é um rapaz de 18 anos, decentemente vestido e de gentil presença, não obstante as feições finas e delicadas quase lhe desaparecerem encobertas pela aba larga do seu chapéu à Mazzantini.

Tinha apenas dado um curto passeio no prolongamento do jardim, quando do lado da rua do Calvário avançou a trote rasgado um trem, que parou em frente dele.

—És tu, Paulo? — disse de dentro uma voz.

—Sou.

—Entra depressa, que a noite está agreste!

E a pessoa que falava de dentro abriu a portinhola, facilitando-lhe a entrada.

O mancebo saltou de um pulo para dentro do carro, a portinhola fechou-se, e os cavalos seguiram no seu trote largo, dobrando a rua da Restauração e subindo a da Liberdade até ganharem a rua do Rosário.

Sigamos aquele trem e ouçamos o diálogo que se trava dentro dele.

Apenas o mancebo entrou, a pessoa que o chamara e que era um homem de 28 a 30 anos, desceu rapidamente as cortinas do carro e disse para o seu jovem companheiro:

—Meu amigo, como já te expliquei, isto são negócios em que se requer a maior circunspeção e escrúpulo na observância das praxes. Has-de consentir que te vende os olhos.

—Acaso desconfias da minha lealdade, Jorge?

—De modo algum. Mas é uma obrigação que o regulamento me impõe, e eu não posso faltar a ela sem trair o meu dever.

—Pois bem, seja!

O sujeito que ouvimos chamar Jorge tirou então do bolso um lenço e vendeu com ele os olhos do companheiro.

—Has-de dar-me a tua palavra de honra que não tentarás arrancar a venda sem que para isso recebas ordem...

—Dou. Mas se o fizesse?

—Poderia isso custar-te a vida, meu caro.

—Apre! — fez o outro, sorrindo — vocês são intransigentes!

—Está nisto a nossa força. Não violentamos ninguém a seguir-nos, damos ampla liberdade a cada um de rejeitar a nossa associação, mas defendemos a nossa existência e mantemos o nosso segredo.

—É justo.

—Assim, tu podes, até à hora de prestares o teu juramento, reconsiderar e exigir que te restituam a liberdade. Nenhum mal te acontecerá por isso, a tua vontade será respeitada, a tua independência mantida. Mas não saberás dizer onde estiveste nem as pessoas com quem falaste.

—Poderei dizer que falei contigo... — gracejou o outro.

—Que importa? Eu não sou uma associação. Comigo pode falar toda a gente...

—Falemos sério! — tornou o moço que dava pelo nome de Paulo. — Asseveras-me que os intuitos dessa associação em que vou entrar são em tudo dignos das justas aspirações de um homem de bem?

—Assevero-te que os irmãos da Mão-negra compreendem e cumprem à risca o nobre dever de se auxiliarem e defenderem mutuamente contra as prepotências sociais da nossa época. No nosso grémio desaparecem as diferenças de hierarquia e de dinheiro. Não há pobres, porque todos somos ricos da riqueza e da importância dos nossos irmãos.

—Poderei então contar com o auxílio da Associação na conquista da mulher que amo?

—Decerto — voltou o outro. — Tanto como amanhã qualquer de nossos irmãos poderá contar com o teu auxílio para a realização dos seus desejos. Isto é apenas uma associação de socorros mútuos, meu caro Paulo. A mulher que amas será tua desde que te filies no nosso grémio. Compreendes que toda a ação da Mão-negra se resume em tornar felizes e ricos os seus irmãos, porque d'essa riqueza e d'essa felicidade lhe advém a ela a força, o poderio, a importância.

O trem ia correndo veloz pela estrada do Carvalhido, sem que Paulo, entretido na conversa, parecesse ter notado o tempo gasto na corrida.

—No entanto — acrescentou ainda Jorge — os fins e intuitos da Associação vão ser-te ainda expostos e confirmados por pessoa idónea e mais competente de que eu. Se te restar alguma dúvida, o mínimo escrúpulo, poderás renunciar ao teu intento, com a única condição de não tirares a venda nem tentares deslealmente devassar os segredos do nosso grémio...

—Conheces-me, e sabes que isso são processos indignos do meu caráter! — protestou o mancebo.

O trem parou em frente de um portão largo, que dava acesso a uma vasta quinta murada.

Jorge apeou-se e deu a mão ao seu companheiro.

—Chegámos! — disse ele.

Paulo apeou-se e, guiado sempre pelo seu amigo, transpôs o portão, que se abriu misteriosamente, tornando a fechar-se sem ruído.

—E o cocheiro? — perguntou o mancebo. — Não receias a sua indiscrição?

—É um dos nossos irmãos — respondeu simplesmente o outro.

—Apre! — tornou o mancebo alegremente. — Eis aqui o que se chama um serviço bem montado!

Jorge não lhe respondeu. Conduziu-o por uma extensa e sombria vereda de ramadas até o fazer entrar num corredor ao rés do chão, pelo qual foram seguindo em silêncio.

—Já estamos em casa! — disse Paulo.

—Porque? — perguntou o outro.

—Sinto-o pela diferença de tempera

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