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AI Voice AudioBook: A cidade do vicio by Fialho de Almeida

AudioBook: A cidade do vicio by Fialho de Almeida

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A CIDADE DO VICIO

PORTO: 1882—TYP. DE A. J. DA SILVA TEIXEIRA 62, Cancella Velha, 62

FIALHO D’ALMEIDA

A CIDADE DO VICIO

PORTO Ernesto Chardron, Editor 1882

A

Joaquim Xavier de Figueiredo e Mello Oriol Pena

Segundo Livro

DE

CONTOS

SYMPHONIA DE ABERTURA

Insupportavel, em Lisboa—o thermometro subindo sem attender a supplicas, subindo e putrefazendo tudo, os despojos subterraneos e a frescura das mulheres, a carne de venda a retalho e a carne de aluguer, os artigos dos jornaes diarios e os artigos alimenticios. Em Lisboa transpira-se muito, pela pelle e pelos criados. E ás vezes, sob o influxo de uma hora de sol ou publicidade, qualquer pessoa se arrisca a ficar com a roupa alagada, e com a reputação em fanicos.

No verão, similhante phenomeno exagera-se com violencias equatoriaes; nem gelados nem discrição, logram attenuar-lhe os impetos—é soffrer ou partir. Eu parti.

Não imaginam que simplicidade hollandeza de toilette e que frescura de linhos, expendidas em vestons sem forro e pantalonas sem feitio!... Botões de madreperola do diametro de relogios, altas polainas atando na perna por correias em cruz, o cinturão de coiro com cabaça para agua, chapeu tyrolez e bordão ferrado, tendo a mochila dependurada na ponta. Sobre isto, excellente saude, pouco dinheiro, muita alegria e nenhum peso de consciencia. Magnifico ser novo e saber desprezar os tolos, pois não? N’estas digressões de andarilho só me entristece não levar alguem ao lado.

Tenho amigos, mas são os peores inimigos de que dou signal—e por esses cafés, tabacarias e alamedas, dando-nos o tu da leal camaradagem, trocando charutos, rindo e enlaçando os braços, é de vêr com que risonha perfidia nos sabemos detestar reciprocamente. Esta hostilidade sagaz, enluvada e fina, que se chama ahi confraternisação litteraria, e sob cuja egide se dão jantares no Gibraltar, elogios nas gazetas, e impagaveis desandas em conclaves reconditos, não passa d’um voltarete elegante, ganho pelos que sabem rir, e sempre pago pelos que esverdeiam de coleras refreadas. Resumindo, parti só. Junho, sabem, quando empalidecem os trigos espigados e seccos, as cigarras chiam nas oliveiras, e o azul é caustico. Começam pela provincia n’esse tempo romagens aos rusticos eremiterios, e as feiras de gado chamam a turba-multa dos lavradores e maioraes.

Portas fóra, as mobilias da Baixa abalavam raras ainda, caminho dos oasis burocratas, Sete-Rios, Campo Grande, Bemfica e Lumiar, em que todo o bom official de repartição, merceeiro ricaço e tisico pobre, vão tonificar-se pelo bom ar dos campos, sem deixar todavia os seus mesteres intramuros.

O typho fazia já propaganda por esses bairros, nas azas do miasma evolto de toda a banda, das portarias surdas, das consciencias gangrenadas, das loterias da Misericordia, dos quarteis, dos tribunaes e dos canos.

Theatros fechados, livrarias ás moscas, tudo esbaforido, e soldados parando ás esquinas a soletrar grandes cartazes, annunciando—O Hereje, as Machinas de Familia (?), A Orgia, e o Fiacre n.º 13, que segundo me contam é revolucionario tambem—e modonho, c’os diabos!...

O campo em junho, despoetisa-se no paiz cerealifero. Grandes zonas amarellecidas de seara, pastos seccos vestindo a charneca, barrancos sem poça d’agua, silvados deixando pender as amoras em cachos, e toda a legião de migradores que veem de cruzar o Estreito, rolas, cegonhas, cucos... Nos montes de rocha, murtaes irrompem d’entre penedos calvos; os alecrins dão flôres em espiguilhas esguias; ascende a vinha arvores acima, vestindo os troncos em pampanos esplendentes; estão copadas, metallicas e redondas de folhagem, as figueiras picadas dos primeiros capa-rôtas. E á margem das ribeiras, nas terras gordas e marnosas, os meloaes expandem-se em fructos de meridianos finos, traçando de antemão as bellas talhadas a partir nas melancias rubras e frescas, e n’esses ricos melões de cheiro, que em jantares de ceremonia tanta pessoa séria teem compromettido. Depois aboboras, frades, gilas, descansando em feno á borda das rigueiras, e picando a monotonia dos caules cellulosos, que rastejando vão na terra sequiosa das hortas. Todo o pomar maduro—laranjaes florindo para os fructos novos, e mostrando ainda pendentes os fructos velhos; a interminavel colonia das ameixas e abrunhos; os damascos de fallas mansas e contactos velludosos; a pera ventruda e monotona de casca; a ginja e a cereja tão pittorescas e picantes á paizagem e ao paladar. E fechando cortejo...

Os pecegos!...

Adorei já uma mulher que gostava d’elles, e tinha uma graça infinita a mordel-os com os seus brancos dentinhos de roedora. Se tomando-lhe a barba com as pontas dos dedos, dôcemente a forçava a vergar-se toda nas costas da cadeira, para na concha rosea da orelha lhe depôr algum segredo irritante, a sua vermelha bocca gottejante dos succos perfumados, matava-me de sêde e endoidecia-me d’amor. Pobre quinquilharia loira!... Tamanha voracidade a possuia ante esses fructos voluptuosos e quentes, que d’uma vez enguliu os caroços e partiu para o cemiterio.

Na sua cova, como lição a incautos, viridente pecegueiro todos os annos carrega de fructos, brotado d’esse corpo que foi vaporoso como uma nudez de Fragonnard, e branco da inexplicavel brancura que dir-se-hia feita com primeiras nuances de hortensia, pennugens ventraes de cegonhas, e corações de rosas brancas.


Como peregrino, que de logarejo em logarejo e cabana em cabana, vai seguindo em busca de alguem que lhe foge, assim de bordão e esclavina como a bella D. Auzenda, eu me aventuro por esses campos e terreolas, fazendo sésta nos moinhos, convivendo com as boiadas leaes, pernoitando nas eiras sob o olhar das estrellas, passando a vau os rios, cruzando estradas, e detendo-me a colher ás horas de sêde torrida, os medronhos bravios das espessuras. Esta existencia de cigano reconforta-me e endurece-me. Tenho a pelle tostada, crescida uma grande barba, e os musculos das pernas e braços, estriados como um aço de rija tempera. Janto o rolão corneo dos cavadores, sardinha salgada com um pichel de vinho alemtejano por cima. Não leio jornaes, o que explica a singular lucidez que em mim refloresce a espaços.

Todas as manhãs, o sol me encontra de chapeu na mão e assobio de melro, na

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